Sobre a origem e o uso dos sinos

Saudações, povo de Deus!

Em uma de minhas incursões na busca por conteúdo evangelizador de qualidade, deparei-me com um texto acerca das origens e do uso dos sinos nas nossas igrejas.

O texto, de autoria do Pe. Thomás Gonçalinho, foi originalmente publicado no ano de 1932, e faz parte dos Boletins Mensais do governo metropolitano do Exmo. Dom Miguel de Lima Valverde, Arcebispo de Olinda e Recife entre os anos de 1922 a 1951, foi republicado pelo site “Direto da Sacristia” (http://diretodasacristia.com), e faz parte da coleção de publicações da Biblioteca do Seminário de Olinda/PE.

Nasci e cresci numa cidade do interior de Alagoas, chamada União dos Palmares, onde, de quase toda a cidade, ouvia-se o repicar dos sinos chamando o povo para a celebração litúrgica. E isso ficou marcado na minha história. Hoje, quando ouço um sino, não apenas recordo-me da minha infância, mas também, de que está para começar o mais sublime louvor: a Santa Missa.

Assim, creio que o tema seja de íntima importância, visto que resgata costume tão belo e significativo do cristianismo. Uma verdadeira característica da nossa história eclesial.

Espero que gostem e aproveitem mais essa página da história.

Com vocês, o texto:

 

OS SINOS

Cap. I – Origem e uso

 

Um das campainhas presas à orla da túnica dos sacerdotes judeus

O uso dos sinos, na sua forma mais simples de pequenas campainhas, remonta a uma alta antiguidade. Não podemos, contudo, determinar a época de sua invenção.

Ilustração de um Sumo Sacerdote judeu.
Foi ordenado por Deus que na orla de sua túnica de púrpura violeta (cf. Ex. 28, 33ss)
houvessem romãs intercaladas com campainhas de ouro, que sinalizariam
com um agradável som o serviço divino e ainda indicariam que o sacerdote
não tinha morrido e o sacrifício tinha sido aceito

É certo que elas já existiam no tempo de Moisés, pois o Senhor mandou-lhe que colocasse na orla da túnica de Aarão um certo número de campainhas de ouro (cf. Êxodo XXVIII, 33-34). Têm-se encontrado destas campainhas em sepulturas chamadas pré-históricas.

Eram conhecidas de quase todos os povos da antiguidade, como demonstram as descobertas arqueológicas. Escritores antigos, como Plutarco, Luciano – entre os gregos, Plínio, Marcial, Suetônio, Sêneca – entre os latinos, falam-nos das campainhas.

O uso que delas faziam era muito variado. Marcial faz menção das campainhas que anunciavam a abertura das termas (Luciano). Nalgumas partes, o toque da campainha indicava a abertura do mercado do peixe (Plutarco). Eram as campainhas que, pela manhã, davam o sinal de despertar (Luciano).

Era costume, e este costume ainda subsiste entre nós, pendurarem uma ou mais campainhas ao pescoço dos animais (São Paulino de Nola). Os pagãos atribuíram-lhes a virtude de afugentar os espíritos maus e, por isso, usavam-nas como amuletos, talismãs, costume supersticioso de que ainda se encontram vestígios entre os fiéis dos primeiros tempos (São João Crisóstomo).

A este e outros usos profanos, devem-se ajuntar os usos religiosos. Conta Porfírio que havia na Índia uma espécie de religiosos que se reuniam ao toque de uma campainha para orar. Em Roma, nas festas de maio celebradas pelos Arvales, eram usadas no culto dos lamures, nos funerais etc. Suetônio conta que Augusto rodeou de campainhas o tímpano do templo de Júpiter. Em antigos templos pagãos, encontram-se campainhas como ex-votos.

Mas foi sobretudo do Cristianismo que as campainhas (e, depois, os sinos) receberam um uso quase exclusivamente religioso – convocar os fiéis aos atos de culto.

O modo de convocar os fiéis para os ofícios divinos não foi sempre o mesmo. Santo Inácio Mártir manda que os fiéis sejam chamados cada um em particular (Carta a Policarpo). Isto não era difícil em tempo e lugares em que os fiéis eram pouco numerosos. Mas, com o aumento dos cristãos, este modo de convocação tornava-se praticamente impossível. Anunciavam-se, então, ao domingo os dias, horas e lugares das reuniões que se houvessem de celebrar durante a semana. E a prática de chamar pessoalmente a cada um restringiu-se aos retardatários, os quais eram chamados pelos cursores, proecones ou monitores.

Era natural que estes usassem algum instrumento que, se não era campainha, fazia as suas vezes. Segundo a Regra de São Pacômio, os monges eram convocados ao som da trombeta. Noutros mosteiros, batia-se à porta da cela de cada religioso com um martelo (Cassiano). No mosteiro de Santa Paula, em Belém, as religiosas eram chamadas ao canto do Alleluia (São Jerônimo).

Mas, já no século VI se encontram documentos que atestam o uso dos sinos nos mosteiros. Destes, o mais antigo é talvez a Regula ad Virgines de São Cesário de Arles, escrita por volta do ano 513. Dos mosteiros, os sinos passaram, em breve, para as igrejas paroquiais, tanto que Gregório de Tours afirma que o seu uso era já frequente no século VI na Gália. Quanto às ocasiões em que se tocavam, transcrevemos aqui uma passagem de Dom Leclercq: “Nos mosteiros, o sino regulava e marcava, de uma maneira que todos compreendiam, os exercícios comuns, desde o despertar, ofício, a refeição e o deitar, até aos menores incidentes da observância e às circunstâncias excepcionais da vida”. À hora da morte, São Sturmio de Fulda (n.e. monge alemão do século VIII) mandou tocar todos os sinos do mosteiro para convidar os irmãos, assim avisados, a porem-se em oração. À nona (n.e. hora do Ofício Divino correspondente às 9h), Begu (n.e. santo do século VII) tem conhecido da morte da abadessa Hilda (n.e. de Whitby, santa falecida em 680) pelo modo especial do toque dos sinos que chega até ele do mosteiro vizinho. Nas igrejas paroquiais, o sino convocava os fiéis aos ofícios do dia e da noite: [tradução nossa do latim] Que todos os sacerdotes competentes soem o sino das igrejas nas horas do dia e da noite, para, em seguida, celebrem os sagrados ofícios divinos e ensinem as pessoas a adorarem a Deus (n.e. Capitularia de Carlos Magno, elenco de leis da época carolíngia).

Talvez se tocassem os sinos em muitas outras ocasiões. Por ocasião do assalto de Sens (n.e. comuna francesa) por Clotário II, o bispo São Lupo mandou tocar o sino da igreja de Santo Estevão; e parece que, pelos fins do século VIII, se tocavam os sinos para afugentar as tempestades e o granizo.

Estes diferentes usos dos sinos eram indicados em inscrições neles gravadas. É muito comum a seguinte: “Laudo Deum verum, plebem voco, congrego clerum, defunctos ploro, pestem fugo, festa decoro”.

Eis mais algumas definições:

Funera plango, fulmina frango, sabbato pango;
Excito lentos, dissipo ventos, paco cruentos”.

Outra:

Convoco, signo, noto, compello, concino, ploro,
Arma, dies, horas, fulgura festa rogos”.

[n.e.] E, a gravação no sino do Mosteiro beneditino de Maredsous, reza:
Jubilans, sacra festa cano;
Suplex longo procellas pello:
Plorans alumnis stratis bello
Amicis, monachis, pacem rogo”.

Hoje, dá-se o nome de “tintinnabulum” à esta insígnia concedida
pela Santa Sé às igrejas basílicas

Os sinos receberam, no decorrer dos tempos, vários nomes. O mais antigo que os latinos lhes deram tintinnabulum (às vezes, tintinna) nome genérico, mas que designava antes as campainhas pequenas. Os gregos chamavam-nas kódones (singular: kódon) e assim os vigias noturnos eram chamados kodonóphoroi por trazerem uma campainha.

Mas o nome próprio latino que serve para designar os sinos é – signum, assim chamado porque servia para dar o sinal – signum. Este nome encontra-se já no primeiro quarto do século VI. Na Regula ad Virgines de Cesário de Arles (escrita cerca do ano 513), lê-se: Quae, signo tacto, tardius ad opus Dei venerit. Na Regra de São Bento (escrita entre 529 a 543), lê-se: Ad horam divini officii, mox ut auditum fuerit signum, summa cum festinatione curratur (capítulo 43). Este nome era muito usado entre os visigodos e encontra-se ainda hoje no Pontificale Romanum, parte II, título: De Benedictione Romanum, parte II, título: De Benedictione signi vel campanae.

Campana é outro nome porque são designados os sinos. Este é derivado, provavelmente, de Campânia, região da Itália, ou por que foi lá que se começaram a fundir os sinos de maiores dimensões ou em razão da boa qualidade do seu bronze, célebre na antiguidade – aes campanum (n.e. cobre campanês). Este nome parece já generalizado no século VI. Encontra-se também o nome campanum, porém menos frequentemente.

No norte da Gália e na região romana, empregava-se a palavra clocca ou glogga. Assim lemos na vida de São Sturmio (780) [n.e. como dito anteriormente] que à hora da morte mandou tocar todos os sinos (glogga) do mosteiro. E, na de São Bonifácio, lê-se: Ecclesiae cloccum, humana non contigente manu, commotum est.

Outro nome é o de nola, já conhecido no século II e que servia para designar os sinos de pequenas dimensões. Há quem o faça derivar de Nola, cidade da Campânia, porém não parece admissível, pois a síbala no de nola (sino) é breve, ao passo que a de Nola (cidade) é longa. Wetzer, com mais probabilidade, deriva-a do céltico nollnell, donde vem o inglês knoll, dobras os sinos.

Os sinos são vasos sagrados, destinados ao culto divino. Como tais, recebem uma bênção especial, que, pela semelhança que tem com o rito do Batismo, é vulgarmente chamado Batismo dos sinos. Esta designação encontra-se já no século VIII. É, todavia, uma designação imprópria. E não se deve, de modo algum, confundir o sacramento do Batismo com a bênção dos sinos, que é um sacramental. De resto, a Igreja nunca admitiu nos seus livros a designação de Batismo, mas sim a de Bênção. E tão antigo, interessante e instrutivo é o Ritual desta Bênção que dele nos ocuparemos num segundo artigo.

 

Cap. II – “Batismo” ou Bênção dos Sinos

Parte I

 

“É conveniente que haja em cada igreja um ou mais sinos para convocar os fiéis aos ofícios divinos e outros religiosos. E estes sinos das igrejas devem ser consagrados ou benzidos segundo os ritos que se encontram nos livros litúrgicos aprovados” (Codex Iuris Canonicis, cânon 1169 § 1 e 2 e Pontifical Romano), pois a Igreja quer que todos os objetos destinados ao culto divino recebam uma bênção especial que os separe das coisas profanas e neles imprima um caráter sagrado.

Esta bênção dos sinos é vulgarmente conhecida pela designação de batismo dos sinos, expressão que aparece já em autores do século X. Assim o monge Letaldo conta na vida de S. Máximo de Micy (+530) que o venerável Anno batizou segundo o costume geral um sino que mandou fundir para uso do mosteiro (Das atas da Ordem de São Bento). Mas esta designação é ainda muito mais antiga, pois Carlos Magno proíbe, na sua Capitular de 23 de março de 789, o batismo dos sinos – ut cloccas non baptizent. É claro que não se proíbe aqui a bênção dos sinos, mas apenas certos costumes, eivados de superstição, que se iam introduzindo e cujo objeto era tornar este rito cada vez mais parecido com o do sacramento do Batismo. Apesar da antiguidade da designação batismo dos sinos, a Igreja nunca admitiu e conservou sempre nos seus livros litúrgicos a de bênção.

De todas as fórmulas que se conhecem desta bênção a mais antiga é a que se encontra no Liber Ordinum da igreja visigoda e mozárabe e que se compõe de um exorcismo – Exorcimus ad consecrandum signum basilice – e de uma bênção – Benedictio ejusdem. “Este texto, diz Dom Férotin, é o mais antigo que conhecemos para a bênção dos sinos de uma igreja. É diferente de todas as fórmulas impressas ou manuscritas que encontrei. É muito anterior à ocupação muçulmana, talvez mesmo do século VI. Todavia, como observa Dom H. Leclercq, “não se pode duvidar um só instante de que a fórmula espanhola, com o seu simples exorcismo e a sua bênção, não representam o tipo original desta cerimônia”. Nesta fórmula não se faz menção alguma da ablução e das unções que aparecem já no século VIII no Sacramentário de Gellone (c. 750) e no Pontifical de Egberto, bispo de York (+ 766) e no século IX em um Códice de Reims, que nos dá em substância a fórmula do Pontifical Romano. Acerca desta fórmula do Pontifical Romano para a bênção dos sinos, diz Dom Cabrol (n.e. monge beneditino e teólogo francês falecido em 1937): “Admiramos, na verdade, como se deve, as belas páginas de prosa e os admiráveis trechos de poesia que os sinos inspiram. Mas, parece-nos que este conjunto de salmos e de ritos encerram tanta poesia e um lirismo mais sublime do que as mais elogiadas páginas de Victor Hugo e Schiller”.

Para a bênção de sinos,
as rubricas prescrevem o uso de báculo pastoral e mitra e pluviale de cor branca.
Na foto acima, Bento XVI prestes a iniciar as I Vésperas de Santa Maria Mãe de Deus

Com preparação para a grande cerimônia que se vai realizar, o Pontífice, revestido de pluvial, sentado no faldistório recita com os ministros os Salmos: – 50. Miserere mei Deus, 53. Deus, in nomine tuo salvum me fac, 56. Miserere mei, Deus, miserere mei 66. Deus, miseriatur nostri, 69. Deus, in adjutorium meum intende, 85. Inclina, Domine, aurem tuam, 129. De profundis.

Em seguida, benze a água com a fórmula ordinária, ajuntando a oração:

Derramai, Senhor, sobre esta água a bênção celeste e fazei descer sobre ela a virtude do Espírito Santo, para que, tendo sido rociado com ela este vaso, destinado a convocar os filhos da Santa Igreja, dos lugares onde ressoar este sino, se afaste para longe a virtude das ciladas dos inimigos, a sombra dos fantasmas, a violência dos turbilhões, os golpes dos raios, os estragos das trovoadas, os desastres das tempestades e todos os espíritos das procelas; e, ao ouvirem a sua voz os filhos dos cristãos, aumente intensamente a devoção para que, correndo para o grêmio da sua piedosa mãe, a Santa Igreja, vos cantem na assembleia dos Santos um cântico novo, que reproduza o som vibrante da trombeta, a melodia do saltério, a suavidade do órgão, a exultação do tambor, a alegria do címbalo, para que, no templo santo da Vossa glória possam com suas homenagens e preces convidar a multidão do exército dos Anjos. Por nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, que Convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo de Deus, por todos os séculos dos séculos.

Depois o Pontífice deita o sal1 na água e conclui a bênção na forma ordinária (n.e. leia-se “ordinária” como relativo ao costumeiro da bênção segundo o rito antigo). Esta bênção é provavelmente de origem galicana e o Sacramentário de Gellone (750) é o documento mais antigo em que ela se encontra.

Terminada esta, o Bispo começa a lavar o sino e os ministros continuam a ablução. Qual a origem desta ablução e das unções? Até agora não se pode ainda dar uma resposta satisfatória. O significado desta ablução é claramente indicado na oração da bênção da água.Enquanto uns ministros lavam o sino, o Pontífice com outros ministros rezam os salmos 145 a 150. “A escolha dos salmos é feita com gosto. São os salmos de louvor… Vê-se claramente pela leitura destes salmos que se considera o sino como uma voz que canta os louvores de Deus e que celebra a sua glória no meio dos homens. As palavras Laudate Dominum, laudate eum, laudate eum sol et luna, laudate eum coeli coelorum, laudate Dominum in sanctus ejus, repetidas a cada passo com um estribilho, com o tempo produzem no ouvido uma impressão análoga àquela que produz o choque do badalo mil vezes repetido sobre o bronze sonoro do sino” (Dom Cabrol).

Tendo os ministros enxugado o sino com um pano, e terminada a recitação dos salmos, o Pontífice traça na parte exterior do sino uma cruz com o Óleo dos Enfermos, dizendo depois a seguinte oração:

Ó Deus, que pelo bem-aventurado Moisés, Vosso servo, pelo qual promulgastes a lei, mandastes fazer trombetas de prata para que, tocando-as os Sacerdotes no tempo do sacrifício, o povo, avisado pelo seu som melodioso, se preparasse para Vos adorar e se reunisse para Vos oferecer os sacrifícios; para que, excitado para a guerra pelo som delas, prostrasse as forças dos inimigos; nós Vos pedimos que façais com que este vaso, preparado para a Vossa santa Igreja, seja santificado pelo Espírito Santo, para que os fiéis pelo seu toque sejam convidados para o prêmio. E, quando aos ouvidos dos povos ressoar a sua melodia, aumente neles a devoção da fé; sejam repelidas para longe todas as ciladas do inimigo, o fragor do granizo, os perigos dos turbilhões, a impetuosidade das tempestades; abrandem-se os trovões destruidores; que o sopro dos ventos se torne saudável e moderado; e que a Vossa mão poderosa destrua as forças aéreas para que, ouvindo este sino, se encham de pavor e fujam diante do estandarte nele traçado da Santa Cruz do Vosso Filho, ao qual se dobra todo o joelho no céu, na terra e no inferno e toda a língua proclama que o mesmo nosso Senhor Jesus Cristo, tendo destruído a morte no madeiro da Cruz, reina glória de Deus Pai, com o mesmo Pai e o Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. R. Amém.

O Pontífice, tendo enxugado a cruz feita sobre o sino, começa a seguinte antífona que a “schola” prossegue:

A voz de Deus faz-se ouvir sobre muitas águas, ressoou a voz do Deus de majestade: o Senhor faz-se ouvir sobre muitas águas.

Depois reza-se o salmo 28. Afferte Domino filii Dei, admiravelmente escolhido, e que o sino nos é apresentado como a voz de Deus falando aos homens e instruindo-os. E quantas e quantas ovelhas tresmalhadas não têm convertido o simples toque do sino, despedaçando a dureza desses corações enregelados, pondo-lhes diante dos olhos a vida futura, excitando neles os mais vivos sentimentos de arrependimento e de amor de Deus?!…

Ao lembrar o sacramento da Confirmação,
o ministro unge o sino com o Santo Crisma em quatro cruzes.
Na foto acima, o Papa Bento XVI assopra dentro do vaso para a bênção do óleo crismal, durante a Missa dos Santos Óleos na Quinta-feira Santa de 2011.

Enquanto se canta o salmo, depois do qual se repete a antífona, o Bispo faz na parte exterior do sino sete cruzes com o Óleo dos Enfermos e quatro na parte interior com o Santo Crisma. As unções com o Óleo dos Enfermos são um exorcismo. Mas, por que razão se emprega aqui este Óleo e não o dos Catecúmenos, como se faz em todos os outros exorcismos? É que, como na Extrema Unção, aqui “é atribuído ao Óleo dos Enfermos poder espiritual não só de exorcizar, mas também de fortalecer; ali, no combate da agonia contra o demônio, aqui, na luta com as tempestades e os espíritos infernais que ‘vagueiam, pelo mundo’”. Em ambos os casos, o Óleo é uma medicina que dá saúde ao corpo, que dá salubridade ao ar – “venturum fabra fiant salubriter ac moderate suspensa” (Dom Duarte Coelho, Curso de Liturgia Romana, I, pág. 103). Fazem-se quatro cruzes com o Santo Crisma para que, por meio dele, o sino seja santificado e consagrado; por isso, o Pontífice diz ao traçar essas cruzes:

Senhor, que este sino seja santificado e consagrado. Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Em honra de Santo N.

A paz seja contigo.

Se a bênção do sino se parece com o Batismo, e até é chamada com este nome, este rito faz-nos lembrar a Confirmação.

 

Parte II

 

Dá-se ao sino o nome de um santo ou de uma santa. Este costume data do século X. No ano de 968, o Papa João XIII benzeu um grande sino que mandou colocar na igreja de Latrão e ao qual deu o nome de João Batista, titular da igreja2. Este uso, segundo alguns autores, deve-se à necessidade que havia de distinguir os sinos uns dos outros e também ao desejo de excitar nos fiéis a pontualidade em acorrer aos ofícios divinos, fazendo-lhes ver que não são chamados apenas por um instrumento inanimado, mas pela voz de um santo. Não contribuiria pouco para isto o desejo de tornar a bênção dos sinos com o Batismo.

O Bispo pede que, semelhantemente às trombetas usadas pelos judeus,
os sinos também vençam os inimigos das almas dos fiéis

Depois disto, o Bispo diz a seguinte oração:

Onipotente e sempiterno Deus, que diante da Arca da Aliança, fizeste cair, ao som das trombetas os muros de pedra que protegiam o exército inimigo, derramai sobre este sino a bênção celeste, para que diante de seu som fujam para longe os dardos inflamados do inimigo, o golpe do raio, o choque das pedras, os estragos das tempestades; para que, à interrogação profética: “que tens, ó mar, porque fugiste? retrocedendo os seus movimentos como a corrente do Jordão”, respondam: “Diante da face do Deus de Jacó, o qual converteu a pedra em tanques de água e fez sair do rochedo fontes de água”. Dai glória não a nós, mas ao Vosso Nome, fazendo brilhar sobre nós a Vossa misericórdia para que, sendo este vaso, como os outros vasos do altar, tocado pelo sagrado Crisma, ungido do Óleo santo, todos aqueles que ao som dele se reunirem, livres de todas as tentações do inimigo, sigam sempre os ensinamentos da fé católica. Por nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, que Convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo de Deus, por todos os séculos dos séculos.

Dita esta oração, o Pontífice impõe num turíbulo thymiama, incenso e mirra, e coloca-o debaixo do sino de modo que este receba todo o fumo. Cerimônia de um tocante simbolismo. Deus serviu-se do fumo do fígado de um peixe para afugentar o demônio da habitação de Sara e Tobias (cf. Tobias VIII, 2s).

O Bispo deita incenso no turíbulo que estará sob o sino, para que a fumaça perfumada preencha o seu interior, em alusão à fumaça usada por Tobias para afugentar os demônios e como sendo o incenso queimado a voz humana em oração.
Na foto, o Cardeal Rodé impõe incenso sob o altar recém-consagrada na dedicação da primeira igreja dos Arautos do Evangelho, em 24 de fevereiro de 2008

Do mesmo modo se serve do fumo destes perfumes para afugentar os espíritos infernais que vagueiam pelos ares. Mas tem ainda outro significado. A voz do sino é a voz do homem que se eleva como volutas de incenso até ao trono de Deus em humilde oração, segundo aquelas palavras do Salmista: Dirigatur, Domine, oratio mea, sicut incensum in conspectu tuo (Salmo CXL, 2). Simboliza também as graças de Deus que o som do sino chama sobre os mortais; pois quando o sino toca, o Senhor recorda-Se das orações que a Igreja nesta bênção faz subir até Ele e que Ele não pode deixar de atender, como fazia outrora com o Povo escolhido quando, nos combates, ressoava o som estridente das trombetas sacerdotais (cf. Números X, 9).

Durante esta cerimônia, a schola canta o salmo 76, desde o versículo 17: Viderunt te aquae, Deus, até ao fim, com a antífona: Ó Deus, os vossos caminhos são santos; qual é o Deus tão grande como o nosso Deus?

A última oração do rito pede que o Senhor conceda ao sino aquele poder de acalmar a fúria da natureza que Ele mesmo manifestou em um episódio evangélico

Depois disto, o Pontífice diz a seguinte oração:

Onipotente dominador Jesus Cristo, que estando Vós a dormir no navio conforme as necessidades da natureza que assumistes, tendo-se levantado no mar uma tempestade, a dissipastes com as Vossas ordens apenas acordado, socorrei pela Vossa bondade às necessidades do Vosso povo; cobri este sino com o rocio do Espírito Santo, para que ao seu som fuja sempre para longe o inimigo dos bons; o povo cristão seja convidado à fé; o exército inimigo seja aterrado; o Vosso povo por ele convocado seja fortalecido no Senhor, e o Espírito Santo, encantado com o seu somo como outrora com o som da harpa de Davi, desça sobre ele; e assim como quando Samuel oferecia em holocausto um terno cordeiro, o fragor dos ventos repeliu a turba inimiga, assim, quando o som deste sino ecoar nas nuvens, as mãos dos Anjos protejam a assembleia da Vossa Igreja e a Vossa sempiterna proteção salve as messes dos fiéis, bem com as suas almas e os seus corpos. Por vós, Jesus Cristo, que viveis e reinais com Deus Pai, etc.

O Pontifical não faz menção do padrinho e madrinha do sino, nem do pano branco em que ele é envolvido; são costumes locais que mais profundamente gravam no espírito dos fiéis a ideia de Batismo. Não, este rito não é um batismo, como também não é uma simples bênção, mas sim uma consagração; e é com este nome que ainda hoje é designado no Direito Canônico3. O sino é consagrado, como são consagradas as igrejas, os altares, os cálices, as patenas. O sino é um vaso sagrado que deve ser tratado com todo o respeito como os vasos do altar, pois, como eles, foi ungido do Santo Crisma. Este respeito para com o sino era muito grande nos tempos passados e tanto assim que só o podia tocar um ministro para isso delegado pela Santa Igreja – o porteiro ou ostiário [n.e. uma das ordens menores que foram supressas pela reforma litúrgica, mas que continuam válidas, sob indulto papal, para aqueles institutos ligados ao rito antigo]; e é por isto que este ainda hoje na sua ordenação toca o sino ou uma campainha.

Não me quero estender mais em considerações sobre os sinos. Muitas e muito úteis se poderiam tirar deste admirável conjunto de ritos e fórmulas; mas, porque este artigo já vai muito longo, fica esse trabalho ao cuidado dos leitores.

Esta tão encantadora cerimônia termina pelo canto de um trecho do Evangelho de São Lucas (X, 38-42), em que se nos fala da visita de Jesus à casa de Maria4. Marta é a imagem daqueles que se entregam à vida ativa. Maria é o tipo dos contemplativos. Àqueles, o sino dirige aquela amorosa repreensão do Divino Mestre: “Por que vos afanais tanto com as coisas terrenas e caducas, com prejuízo da salvação da vossa alma? E, todavia, é isto a única coisa necessária”. O sino incita-nos a trabalhar neste único necessário de muitas maneiras. Aviva em nossas almas a fé nos mistérios de nossa santa religião, quando nos dias das grandes solenidades se ouve o seu repicar alegre. Em dias de luto, com o seu badalar lúgubre, recorda-nos que a nossa pátria não é neste mundo e que devemos caminhar para uma vida melhor. Recomenda-nos a santidade da alma e a pureza do coração, quando ecoa pelos ares o seu toque festivo em dias de um batizado ou de uma profissão de fé (comunhão solene). Chama-nos à igreja para aí cumprirmos os nossos mais sagrados deveres de religião, para aí ouvirmos a palavra de Deus, para aí trabalharmos mais diretamente na salvação da nossa alma. Abramos docilmente os nossos corações à voz do sino, como Maria [n.e. o autor do texto refere-se, porém, à Maria Madalena] às palavras do Salvador, e aproveitemos a melhor parte – “Maria optiman partem elegit”.

Depois de conhecermos a riqueza teológica que permeia o uso dos sinos na Igreja, resgatemos em nós a importância que eles têm para a nossa vida espiritual e o valor que eles significam. Hoje, com o esquecimento dos valores cristãos e o crescente desejo que apagar os sinais da fé, muitas igrejas não podem repicar os seus sinos a fim de não incomodar os incomodados vizinhos seus que não permitem sequer uma bela tradição que lhes precede na história e que não. Assim, em muitas grandes cidades, o único sino que é escutado é o da campainha, durante as cerimônias – se é que esse sinal sonoro não foi totalmente abafados pelas músicas que em muitas igrejas se cantam durante os momentos de adoração à Eucaristia.

 

Autoria do Pe. Thomás Gonçalinho (publicado originalmente na edição maio-julho 1932).

 

Notas:

1 [observação original do texto] O costume de deitar sal na água benta ordinária data, pelo menos, do século VI. Parece que no século VIII deitavam também óleo na água usada na bênção dos sinos. Assim o Sacramentário de Gellone [n.e. conde católico francês] diz: Dum cantes, laves eum de aqua benedicta eum oleo et sale [t.e. Enquanto canta, lave-o com água benta, óleo e sal]. A mesma prescrição se encontra em um códice de Reims (século IX), bem como em um Pontifical do século XI pertencente à Catedral de Aorta. De fato, o Sacramentário Gelasiano (século VIII), numa forma da bênção da água benta ordinária, manda deitar nela vinho e óleo.

2 Treiner, autor desta informação, parece afirmar que foi João XIII quem introduziu a bênção dos sinos. Os documentos que citamos acima provam que ela é muito mais antiga.

3 Além desta bênção solene ou consagração que se encontra no Pontifical Romana e que é reservada ao Bispo, não podendo dá-la a um simples sacerdote sem indulto apostólico, há outra mais simples, aprovada pela Sacra Congregação dos Ritos em 22 de janeiro de 1908, que vem no Ritual Romano e pode ser dada pelo Ordinário ou por sacerdotes por ele delegados. É [n.e. o era naquela época, mas ainda deve ser observado quanto ao uso desta bênção] desejo da Sacra Congregação para os Ritos que na bênção dos sinos de uma igreja consagrada, se observe a fórmula do Pontifical, que também se pode seguir quanto aos sinos das outras igrejas.

4 O canto do Evangelho foi introduzido provavelmente no século XIII.

 

***

 

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Sobre Alex C. Vasconcelos

Casado, 32 anos, pai de uma princesa, Advogado, Acólito na Paróquia do Divino Espírito Santo em Maceió/AL.
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