Questões sobre a morte e o além – IV

Com o presente texto concluo estes artigos sobre o Além. No último escrito, mostrei que é o homem na sua totalidade quem ressuscita: corpo e alma. Vimos que as doutrinas reencarnacionistas não têm nenhum sentido do ponto de vista da Sagrada Escritura e da fé cristã. Agora, deixei para este último artigo uma questão: Como e quando será a ressurreição? Eis do que trataremos!

Nossa ressurreição é um processo que se inicia logo após a morte e terminará comente na Parusia, com a manifestação gloriosa do Senhor: logo após a morte, com uma dimensão mais individual da ressurreição e, na Parusia do Senhor, com uma dimensão marcadamente comunitária e cósmica. Vejamos. A morte, além de ser uma realidade que me atinge como “eu”, como identidade e como alguém que vive neste mundo em relações com as coisas e as pessoas, é, também, uma dilaceração de minha unidade psicossomática: meu corpo e minha alma, inseparáveis, separam-se! Por isso também a morte é experimentada por nós como algo existencialmente doloroso, como uma realidade que traz em si algo de violência… Eu sou meu corpo; na minha corporeidade experimento a morte e a dissolução do meu corpo, que vai decompor-se até o nada. Eu sou minha alma, que padece a separação do corpo com o qual e para o qual fora criada.

Imediatamente após a morte, minha alma ressuscita, isto é, é transfigurada com Cristo e em Cristo. A alma não morre: ressuscita no sentido de ser transfigurada em Cristo! Não basta, para ela, ser imortal porque é indestrutível: isso não garantiria a felicidade da alma. Somente transfigurada pelo Espírito do Cristo ressuscitado, a alma humana pode chegar à plenitude! É nesta plenitude feliz que nossa alma entra logo após a morte. Isto é o céu: estar com Cristo. Aí ninguém mais vai sofrer, ninguém mais vai chorar, ninguém mais vai ficar triste, ninguém mais vai ter saudade. Perder o Cristo é o inferno, que também começa logo após a morte para a alma dos condenados. Note-se que, para os cristãos, não é suficiente afirmar que a alma é imortal; é necessário afirmar também que ela ressuscitará, isto é, será plenificada em Cristo com uma vida sobrenatural, vida no Espírito Santo.

Mas, o que é a alma? É o nosso princípio de vida, de consciência e liberdade, é o núcleo de nossa personalidade, do nosso eu. Não é uma parte, um pedaço de mim, mas uma dimensão minha. Na minha alma, na minha dimensão anímica, eu tenho consciência de mim, de minha identidade: sei quem sou, sei o que quero, recordo plenamente o que fui e o que vivi! Concluindo: logo após a minha morte uma minha dimensão – a alma! – já entra na plenitude de Cristo, mas o meu ser humano como um todo ainda não está totalmente glorificado: falta a dimensão corporal, que é parte de mim, que me definiu durante minha existência neste mundo.

Na Parusia do Senhor, quando Ele Se manifestar na Sua glória, todo o mundo físico será glorificado e, aí também meu corpo, minha dimensão somática, física, material, será ressuscitada. Então, em corpo e alma eu estarei com o Senhor glorificado ou, ao invés, estarei eternamente distante Dele.

Então, há duas afirmações que é necessário manter unidas se quisermos ser coerentes com a Tradição da Igreja e com os dados da Escritura: 1) após a morte não ficaremos dormindo, mas já ressuscitaremos; 2) esta ressurreição imediata atinge somente uma dimensão nossa – a alma, núcleo do “eu”; 3) no final dos tempos, também nosso corpo ressuscitará, quando toda a criação será também transfigurada. Nosso corpo não ressuscita logo após a morte, mas somente no final dos tempos, no Dia da Ressurreição, até lá ficará “dormindo” no “sono” da morte!

Alguns teólogos perguntam: como pode existir uma alma separada? É preciso ter cuidado com esta questão! Filosoficamente falando a alma não poderia existir separada do corpo: a alma foi feita para animar o corpo e este só é corpo humano porque animado por uma alma humana. Sem alma, não há corpo humano, mas cadáver humano! Mas, isto vale para este mundo! Com a morte, nós saímos deste mundo e, então, não há muito que a filosofia ou a teologia possam falar sobre o Além de modo descritivo. Não podemos descrever nossa situação no pós-morte! Nossa alma subsiste no Além se o corpo de um modo sobrenatural, transfigurada na glória de Cristo! Um outro ponto importante a ser tomado em consideração: o modelo do que acontecerá conosco após a morte é Cristo! Ora, entre sua morte e ressurreição, enquanto seu corpo era destruído pela morte, no túmulo, sua alma humana não estava ali, unida ao corpo; não estava morta, apesar de ainda não estar glorificada! Então, não é impossível falar numa alma “separada”. Além do mais, a alma não fica propriamente separada: desde o Batismo e pela Eucaristia estamos misteriosa, mas realmente, incorporados em Cristo, no Seu corpo, que é a Igreja; estamos inseridos em Cristo e unidos ao Seu corpo! Assim sendo, mesmo antes da ressurreição final do nosso corpo, não somos alma sem corpo algum, separada de toda corporeidade: Estamos no Corpo de Cristo! Como é isto? Não podemos descrever nem imaginar, pois são realidades que pertencem ao mundo futuro! Sabemos disso, no entanto, pela fé naquilo que o Novo Testamento atesta e a contínua Tradição da Igreja ensina.

Quanto ao modo como o corpo ressuscitará no final dos tempos, já vimos nos textos passados; basta dar uma olhadinha. Uma última observação: em Maria, a Virgem, a ressurreição já foi totalmente realizada. Ela – e somente ela entre todos os santos – já está totalmente com Cristo, em corpo e alma, devido à sua singularíssima união com o Cristo!

Ficamos por aqui. Espero que, de modo geral, algumas questões sobre o Além tenham ficado mais claras. Para os irmãos católicos, espero que estes textos os ajudem a ter uma visão mais clara, articulada e madura da fé que professam. Para os não católicos, auguro que sejam oportunidade para conhecer sem preconceitos nem distorções infantis o que crê a Igreja de Cristo.

Autor: Dom Henrique Soares da Costa, Bispo Auxiliar de Aracaju/SE

Fonte: Blog Visão Cristã

Anúncios

Sobre Alex C. Vasconcelos

Casado, 32 anos, pai de uma princesa, Advogado, Acólito na Paróquia do Divino Espírito Santo em Maceió/AL.
Esse post foi publicado em Formação e marcado , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s