Bento XVI: “No momento da provação, rezar conforta!”

Na manhã desta última quarta-feira (09/05), o Papa concedeu audiência ao ar livre, na Praça São Pedro, onde o papa-móvel circulou em meio à multidão, possibilitando aos peregrinos, turistas e romanos saudar Bento XVI de perto.

Falando à multidão, o Pontífice prosseguiu a série de catequeses que vem fazendo sobre a relevância da oração e citou o episódio da vida de São Pedro em que foi encarcerado e em seguida milagrosamente libertado graças à “prodigiosa intercessão do anjo”.

O apóstolo havia sido preso por decisão de Herodes. Na prisão, acorrentado, ele fica tranquilo e confiante, porque está certo que a comunidade, reunida, reza por ele. Pedro sabe que não está só: o Senhor o acompanha, a força de Cristo se realiza na fragilidade. Bento XVI explicou que seguindo Jesus, Pedro encontrou a verdadeira liberdade e por isso, deu testemunho até o martírio, confirmando que o Senhor havia ressuscitado e o salvou.

Este episódio, narrado por Lucas, nos adverte que a Igreja, ou seja, cada um de nós, ao atravessar a noite de provações, se vê confortado pela oração vigilante, perseverante e confiante no Senhor, porque ele nos liberta das correntes, concede serenidade e nos ajuda a enfrentar as dificuldades, mesmo diante da recusa, da oposição e da perseguição.

Depois de proferir sua reflexão em italiano, Bento XVI fez um resumo em várias línguas, falando também em português:

“Queridos irmãos e irmãs,

O último episódio da vida de São Pedro narrado nos Atos dos Apóstolos trata da sua prisão em Jerusalém, da qual foi liberto por uma intervenção prodigiosa de um anjo do Senhor. Apesar da dificuldade da situação, diz o texto que Pedro dormia, estava tranquilo. Essa calma era fruto da sua confiança em Deus, em cujas mãos se abandonaram, e da certeza que estava sendo acompanhado pela oração dos irmãos. Com o anjo, Pedro vive uma experiência semelhante àquela que fizera o povo de Israel, quando foi libertado da escravidão do Egito. Ele experimenta que a verdadeira liberdade é poder seguir a Jesus. Por outro lado, a passagem mostra como a comunidade de Jerusalém sabia que, no momento da prova, é a oração que dá sustento e força. O texto diz que, enquanto Pedro era mantido na prisão, a Igreja orava continuamente a Deus por ele. Também nós, por meio de uma oração constante e confiada, experimentamos como o Senhor nos liberta das cadeias e nos guia no meio das noites que atormentam o nosso coração, dando-nos a serenidade para enfrentar as dificuldades da vida.

Saúdo os grupos nomeados de Portugal e do Brasil e todos os peregrinos lusófonos presentes nesta Audiência, particularmente os sacerdotes da Diocese de Zé Doca, acompanhados de seu Bispo, Dom Carlo Ellena. Assim como a oração da primeira comunidade sustentou a Pedro na dificuldade, hoje também o seu Sucessor sabe que pode contar com as vossas orações. Que Deus vos abençoe! Obrigado!”.

Em inglês, o Papa saudou os participantes da Conferência sobre o Tráfico Humano, promovida pelo Pontifício Conselho da Justiça e da Paz, que participaram da audiência. Cumprimentou também os grupos de vários países em francês, espanhol, alemão, eslovaco, húngaro, croata, russo, letão e polonês, recordando a solenidade de Santo Estanislau, festejado terça-feira.

Em italiano, ele elogiou o trabalho da associação missionária de leigos África CUAMM, que há mais de 60 anos desempenha uma preciosa atividade em favor do direito à saúde e a defesa do valor da vida humana.

No final da audiência, Bento XVI concedeu a sua benção a todos os presentes, ouvintes e telespectadores que acompanharam o encontro.

 

Fonte: Rádio Vaticano e Arquidiocese de Maceió

***

Segue, abaixo, a catequese completa do Papa Bento XVI sobre a oração por Pedro na prisão:

Praça de São Pedro
Vaticano

Quarta-feira, 09 de maio de 2012

 
 
Queridos irmãos e irmãs!

Hoje gostaria de deter-me sobre o último episódio da vida de São Pedro narrado nos Atos Apóstolos: a sua prisão segundo o querer de Herodes Agripa e a sua libertação pela intervenção prodigiosa do Anjo do Senhor, na vigília do seu processo em Jerusalém (At 12,1-17).

A narração é mais uma vez marcada pela oração da Igreja. São Lucas, de fato, escreve: “Enquanto Pedro estava no cárcere, da Igreja subia incessantemente a Deus uma oração por ele” (At 12,5). E depois de ter miraculosamente deixado o cárcere, em ocasião de sua visita à Casa de Maria, a mãe de João Marcos, se afirma que “muitos estavam reunidos e rezavam” (At 12,12). Entre essas duas situações importantes que ilustram a atitude da comunidade cristã diante do perigo e da perseguição, se fala da detenção e da libertação de Pedro, que compreende toda a noite. A força da oração incessante da Igreja se eleva a Deus e o Senhor escuta e realiza uma libertação impensada e inesperada, enviando seu anjo.

A narração enfatiza os grandes elementos da libertação de Israel da escravidão do Egito – a Páscoa hebraica. Como aconteceu naquele evento fundamental, também aqui, a ação principal é realizada pelo anjo do Senhor que liberta Pedro. E as mesmas ações do apóstolo – ao qual foi pedido que se levantasse às pressas, colocasse o cinto e o cingisse à cintura – remontam aquelas do povo eleito na noite da libertação por intervenção de Deus, quando foi feito o convite para que se comesse às pressas o cordeiro, que estivessem cingidos, com sandálias aos pés, bastão nas mãos, pronto para sair do país (Ex 12,11). Assim Pedro pode exclamar: “Agora sei verdadeiramente que o Senhor mandou seu anjo e me arrancou das mãos de Herodes” (At 12,11). Mas o anjo representa não somente aquele da libertação de Israel do Egito, mas também aquele da Ressurreição de Cristo. Contam, de fato, os Atos dos apóstolos: “Eis que se apresentou um anjo do Senhor e uma luz fulgurante tomou a cela. Ele tocou o lado de Pedro e o despertou” (At 12,7). A luz que preenche a prisão, a ação de despertar o apóstolo, remontam à luz libertadora da Páscoa do Senhor que vence as trevas da noite e do mal. O convite, de fato: “Coloques o manto e segue-me” (At 12,8), faz ressoar no coração, as palavras do chamado inicial de Jesus (Mar 1,17), repetida depois da ressurreição no lago de Tiberíades, onde o Senhor diz por duas vezes a Pedro: “Segue-me” (Jo 21,19.22). É um convite apressado de seguimento: somente saindo de si mesmo para colocar-se em caminho com o Senhor e fazer a sua vontade, se vive a verdadeira liberdade.

Gostaria de destacar também um outro aspecto da atitude de Pedro na prisão; notamos, de fato, que, enquanto a comunidade cristã reza com insistência por ele, Pedro “dormia” (At 12,6). Em uma situação tão crítica e de sério perigo, é uma atitude que pode parecer estranha, mas que, ao ao mesmo tempo, representa tranquilidade e confiança; ele se confia a Deus, sabe que está circundado pela solidariedade e pela oração dos seus e se abandona totalmente nas mãos do Senhor. Assim deve ser a nossa oração: assídua, solidária com os outros, plenamente confiante em Deus que nos conhece no íntimo e cuida de nós ao ponto que – diz Jesus – “até o cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não tenhais medo” (Mat 10, 30-31). Pedro vive a noite na prisão e da libertação do cárcere como um momento que faz parte da sua escolha em seguir o Senhor, o qual vence as trevas da noite e liberta da escravidão das cadeias e do perigo da morte. A sua é uma libertação prodigiosa, marcada por várias passagens descritas acuradamente: guiado pelo Anjo, apesar da vigilância dos guardas, atravessa o primeiro e o segundo posto de guarda, até a porta de ferro que o conduz para a cidade: e a porta se abre sozinha diante deles (At 12,10). Pedro e o Anjo do Senhor cumprem juntos uma parte da estrada, até que, entrando em si mesmo, o Apóstolo se dá conta que o Senhor realmente o libertou e, depois de ter refletido, se direciona à casa de Maria, a mãe de Marcos, onde
muitos dos discípulos estão reunidos em oração; mais uma vez a resposta da comunidade diante da dificuldade e do perigo é confiar-se a Deus, intensificar o relacionamento com Ele.

Aqui me parece útil enfatizar uma outra situação não fácil que viveu a comunidade cristã das origens. São Tiago fala sobre isso na sua carta. É uma comunidade em crise, em dificuldade, não tanto por causa das perseguições, mas porque dentro estão presentes ciúmes e contendas. (Tiago 3,14-16). E o Apóstolo se pergunta o porquê daquela situação. Ele encontra dois motivos principais: o primeiro é o deixar-se dominar pelas paixões, pela ditadura do próprio querer, pelo egoísmo (Tiago 4,3); o segundo é a falta de oração – “não pedis” (Tiago 4,2b) – ou a presença de uma oração que não se pode definir como tal – “pedis e não obtenhais, poque pedis mal, para satisfazer as vossas paixões. Essa situação mudaria, segundo São Tiago, se a comunidade falasse unida com Deus, pela continuidade de um diálogo vivo com o Senhor. Um aspecto importante também para nós e nossas comunidades, sejam aquelas pequenas como a família, sejam aquelas mais vastas como a paróquia, a diocese, a Igreja inteira. Me faz refletir que as pessoas rezaram nessa comunidade de São Tiago, mas rezaram mal, somente pelas próprias paixões. Devemos sempre de novo aprender a rezar bem, rezar realmente, orientar-se para Deus e não em direção ao bem próprio.

Já a comunidade que acompanha a prisão de Pedro é uma comunidade que reza verdadeiramente, por toda a noite, unida. E é uma alegria que não se pode conter aquela alegria que invade o coração de todos quando o Apóstolo bate inesperadamente a porta.
São a alegria e o estupor diante da ação de Deus que escuta. Assim a Igreja eleva a oração por Pedro, e para a Igreja ele volta para narrar “como o Senhor o havia tirado da prisão” (At 12,17). Naquela Igreja onde ele é colocado como rocha (Mat 16,18), Pedro narra sua Páscoa de libertação: ele experimenta que no seguimento de Jesus está a verdadeira liberdade, se é envolvido por uma luz fulgurante da Ressurreição e por isso, se pode testemunhar até o martírio que o Senhor Ressuscitou e que verdadeiramente mandou o seu anjo que o arrancou das mãos de Herodes (At 12,11). O martírio que sofrerá em Roma o unirá definitivamente a Cristo, que o havia dito: quando fores velho outro te levará para onde não queres ir – para indicar com qual morte ele teria que glorificar a Deus. (Jo 21,18-19).


Queridos irmãos e irmãs, o episódio da libertação de Pedro narrado por Lucas, nos diz que a Igreja, cada um de nós, atravessa a noite da prova, mas é a vigilância incessante da oração que nos sustenta. Também eu, desde o primeiro momento de minha eleição como Sucessor de Pedro, me senti amparado pela vossa oração, pela oração da Igreja, sobretudo nos momentos mais difíceis. Agradeço de coração.

Com a oração constante e confiante, o Senhor nos liberta das cadeias, nos guia para atravessar qualquer que seja a noite de prisão que possa tomar nosso coração, nos dá a serenidade do coração para enfrentar as dificuldades da vida, também a rejeição, a oposição, a perseguição. O episódio de Pedro mostra essa força na oração. E o Apóstolo, mesmo em meio às correntes, se sente tranquilo, na certeza de não estar sozinho: a comunidade está rezando por ele, o Senhor está próximo a ele; e mais ainda: ele sabe que a força de Cristo se manifesta plenamente na fraqueza” (II Cor 12,9). A oração constante e unânime é um precioso instrumento também para superar as provas que podem surgir no caminho da vida, porque é o estar profundamente unidos a Deus que nos permite de estarmos também profundamente unidos aos outros. Obrigado.

Bento XVI

Sobre Alex C. Vasconcelos

Casado, 32 anos, pai de uma princesa, Advogado, Acólito na Paróquia do Divino Espírito Santo em Maceió/AL.
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