O lar como um convite ao retorno

Há mais de 20 anos, quando ainda estudante secundária e bolsista em um colégio de religiosas Concepcionistas do Ensino, ouvi uma palestra que nunca esqueci. Era sobre o papel da mulher na vida do lar, sua presença e ação para a transformação do lar em um convite ao retorno, de sorte que todos os que vivessem ali desejassem retornar ao lar no fim do dia.

Refletindo sobre isto, chego à conclusão hoje de que todos têm esta missão de transformar o lar num convite ao retorno, criando um ambiente de paz, de acolhida, de alegria, de espiritualidade, enfim um ambiente tão saudável e bom que ninguém pense em buscar outro refúgio, mas encontre em seu lar tudo de que necessita para ser feliz.

Penso que muitas vezes em nossa vida de oração perdemos um pouco este sentido de “criar” um ambiente favorável. Jesus disse que, quando orássemos, “entrássemos em nosso quarto, fechássemos a porta e orássemos em segredo ao Pai”. Se o ambiente externo é necessário, mas às vezes impossível de ser favorável, muito mais o ambiente interno deve ser preparado. Pensemos um pouco no que pode significar estes termos: Entrar em nosso quarto…

Entrar em nosso quarto…

Como templos vivos de Deus pelo Batismo, trazemos a Santíssima Trindade dentro de nós. Em outras palavras, somos habitados, nunca estamos sozinhos, Ele sempre está conosco, está em nós. Esta descoberta é capaz de mudar nossa vida. Já dizia a carmelita francesa Beata Elisabete da Trindade: “Saber que um Ser que é Amor habita em mim mudou minha vida”. Quando refletimos nesta realidade somos tocados por um respeito muito grande para com nossa pessoa e a pessoa de nossos irmãos. Se nossas igrejas não podem ser profanadas, os sacrários são bem cuidados e guardados para não haver profanação, muito mais devemos guardar o “templo vivo” que somos nós.

Mas não basta sermos habitados se não damos a mínima atenção Àquele que habita, que faz sua morada em nós. Não é uma presença fria, distante e convencional a que trazemos em nós. É a presença de um Amigo que nos ama e nos espera para a partilha de vidas, de sonhos, ideais, sofrimentos, lutas, de tudo o que temos e somos. Entrar em nosso quarto é dar atenção a este “Hóspede divino” que é mais do que hóspede, é “dono, senhor absoluto” de nossa “casa”.

Entrar em nosso quarto é viver em nossa oração o que São João da Cruz deixou como “suma de perfeição”: “esquecimento de toda a criatura; memória do Criador; atenção ao interior; estar amando o Amado”. É uma atitude de recolhimento, de escuta, até mesmo de “educação”, pois todos que chegam à nossa casa devem ser merecedores de nossa atenção. Deixando o que nos perturba, entramos no quarto de nossa intimidade com o Senhor. O quarto é lugar de intimidade, onde tudo deve colaborar para o diálogo de amor.

Nossa oração deve ser preparada, desejada, esperada com amor e cercada de uma atenção especial. Se quando vamos nos encontrar com algum amigo ou pessoa importante para nós, sempre há uma preparação, uma busca, um anseio pelo encontro, o mesmo – e até mais – deve acontecer quando vamos nos “encontrar” com Jesus em nossa oração. A leitura de algo que me lembre Sua presença ou Sua doutrina, a procura de pacificação de nossa mente agitada por tantos problemas e acontecimentos, o abandono nas mão Daquele que tudo sabe e cuida de nós com amor de Pai, de Amigo, de Esposo, de Mestre.

Criar um ambiente interior antes da oração, durante o dia ou à noite, trazendo à memória esta “presença” da Trindade Santa em nós pode ajudar a nos preparar para este momento de intimidade com o Senhor. Uma música suave, a contemplação de algo belo na natureza, a lembrança de uma graça alcançada, ou mesmo a dor de uma perda e as interrogações que a cruz suscita em nosso coração, também podem servir como “tapetes” por onde caminhamos até o “trono do Rei”.

O silêncio interior é um elemento importante e nem sempre o conseguimos, mesmo durante ou depois de nossa oração. Quando isto acontece, aprendamos a oferecer nossos barulhos interiores numa atitude de humildade e simplicidade diante do Senhor e aguardar que Ele mesmo nos pacifique na hora certa e do jeito certo. Muitas vezes, para haver esta pacificação é preciso um longo diálogo com ele onde colocamos cada detalhe daquilo que nos angustia. Outras vezes precisamos encontrá-Lo na pessoa de um irmão ou irmã que nos escute e reze conosco, ou mesmo em um descanso merecido, quando nosso corpo está no limite de suas forças.

Santa Teresa é muito humana ao nos ensinar a caminhar na vida de oração. Ela diz que, “às vezes todas as tribulações parecem cair sobre nossa cabeça… quando isto acontecer, reze como pode e até nem reze”. Quantos de nós ao experimentarmos sofrimentos atrozes ou dores inevitáveis não passamos por esta experiência de não conseguirmos rezar e apenas nos contentamos em oferecer nossos sofrimentos! E às vezes nem isto conseguimos… Tudo é importante para Aquele que nos acolhe no amor. Não deixemos desperdiçar nada de nosso dia-a-dia…

Fechar a porta!

Fechar a porta! Neste conselho do Senhor não podemos entender nossa oração como alienação diante da vida e do mundo. Fechar a porta poderia ser não dar atenção aos nossos sentidos, fechar os olhos, estar atento à Sua presença, deixar fora as preocupações inúteis, pensamentos desnecessários, etc. Fechar a porta é uma atitude de quem quer estar a sós com Deus para se refazer em Sua presença e depois “sair” para uma doação mais generosa e plena. Lá dentro posso, e até devo, trazer à presença o que tenho em meu coração, e o que os outros, meus irmãos, pediram-me para colocar diante do Senhor. Mas isto deve ser feito de maneira a não perturbar a intimidade, ou seja, devo colocar diante Dele tudo, sabendo que Ele é que é Senhor de tudo, não meu raciocínio, não minhas “forças”, sem perturbação nem desespero, mas com confiança em Sua misericórdia, em Seu poder.

Vivemos num mundo de muito barulho exterior e interior, e as pessoas parecem ser educadas para a agitação, a pressa, a inquietação. Fechar a porta de nosso ‘quarto interior’ é um desafio que pode exigir uma longa caminhada de aprendizado e de exercício perseverante. Mas vale a pena para se chegar ao cerne da oração, que é o falar em segredo ao Pai.

Falar em segredo ao Pai. Ele nos ouve ainda quando estamos em silêncio. Diz Santa Teresinha que “oração é um impulso do coração” e isto pode acontecer em qualquer hora e lugar, caminhando, viajando, dirigindo, esperando alguém, etc. Mas em nossa oração este impulso do coração pode tomar várias formas, como o falar, o calar, o adorar, o louvar de diversas formas, o cantar, o simplesmente deixar-se olhar por Ele, o deixar-se amar… O que vale é deixar o Espírito Santo orar em nós da forma como só Ele sabe fazer, e que tanto agrada ao Pai. E nunca nos esqueçamos que estamos diante do Pai, diante de Jesus, diante do Espírito Santo, que são um e que nos ama. Diante de quem nos ama somos o que somos, não precisamos de máscaras, nem de convenções, nem de palavras difíceis, nem de muitas cerimônias. A simplicidade é a marca do amor.

Que nossa caminhada de intimidade com o Senhor nos leve a desejar voltar à nossa oração sempre mais. Façamos de nosso “lar”, de nossa casa interior um convite ao retorno, até que cheguemos àquele “orar sem cessar” de que nos fala São Paulo em suas cartas e que é a comunhão contínua com o Senhor em cada momento de nosso dia.

 

Por Irmã Maria Elizabeth da Trindade, OCD – Passos

Fonte: Revista Shalom Maná – http://www.comshalom.org/

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Sobre Alex C. Vasconcelos

Casado, 32 anos, pai de uma princesa, Advogado, Acólito na Paróquia do Divino Espírito Santo em Maceió/AL.
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