A Missa “parte por parte”

A missa é uma celebração. E celebrar, “é tornar presente uma realidade através de um rito”. Na celebração, temos sempre presentes o passado, o presente e o futuro, que em breves momentos unem-se num tempo só, a eternidade. E qual a  finalidade de uma  celebração? Nenhuma. A celebração possui valor. Aliás, as  coisas mais  importantes do homem  como  o  lazer,  o  amor,  a  arte,  a  oração  não  tem  uma  finalidade produtiva, mas sim valor. E o valor da missa é tornarmos presente a paixão-morte-ressurreição de Cristo através da celebração, e assim participarmos mais ainda do mistério de  salvação da humanidade.

Vale a pena ainda lembrar que, ao tornarmos presente o sacrifício de Cristo não quer dizer que estejamos novamente sacrificando o Cristo. Partindo do princípio que a salvação de Cristo não se prende  à nossa visão de presente, passado  e  futuro, mas  coloca-se no nível da  eternidade,
podemos afirmar que Cristo ao morrer na cruz salva todos os homens em todos os tempos, e a cada instante. É como se em cada missa, você estivesse aos pés da cruz contemplando o mistério da redenção da humanidade. E é o que acontece em cada missa, em cada eucaristia celebrada. E aí está o amor de Cristo ao dar-se na Eucaristia, em forma de alimento.

“Receita” de Missa

Para realizarmos uma missa precisamos de alguns “ingredientes”:

a) A palavra de Deus
b) Altar (a missa é uma ceia, precisamos de uma mesa);
c) Assembléia (no mínimo uma pessoa);
d) Intenção do que se faz, tanto da parte da assembléia quanto do ministro;
e) Ministro ordenado (padre ou bispo);
f) Pão, água e vinho.

Estes são os ingredientes indispensáveis a qualquer celebração eucarística. Sobre cada um deles, explicaremos no decorrer de cada parte da missa.

Outrora, a missa não possuía este nome, mas era chamada de ceia do Senhor ou eucaristia. De fato, a missa é uma ceia onde nos encontramos com os irmãos para juntos alimentarmo-nos do próprio Deus, que se dá em alimento por sua Palavra e pelo pão e o vinho. E a missa também é eucaristia. O que vem a ser isso? Eucaristia significa ação de graças. No capítulo 24 do livro do Gênesis, vemos um exemplo de ação de graças. Após a morte de  sua esposa Sara, Abraão pede ao  seu  servo mais antigo que procure uma esposa para seu filho Isaac. O servo parte em busca desta mulher, mas como iria reconhecê-la? Pede a Deus um sinal e o servo a reconhece quando uma bela jovem dá de beber de seu cântaro ao servo e seus camelos. E qual sua reação após este fato? “O servo inclinou-se diante do Senhor. Bendito seja, exclamou ele, o Deus de Abraão, meu senhor, que não faltou à sua  bondade  e  à  sua  fidelidade.  Ele  conduziu-me  diretamente  à  casa  dos  parentes  de meu Senhor” (Gn 24,26-27).

Eis aqui uma ação de graças. Quais os seus elementos? Temos antes de tudo um fato maravilhoso, uma bênção, um benefício, uma graça alcançada, manifestação da bondade de Deus. Depois, a admiração. O servo inclina-se diante do Senhor. Esta admiração manifesta-se pela exclamação e aclamação. Ele não faltou à sua bondade e à sua fidelidade. Proclama, então, o fato, narra o acontecimento, o benefício, a Bênção
recebida. Todos estes elementos encontram-se no contexto da missa, como veremos adiante. E  por  que  então  a missa  possui  este  nome?  Por  enquanto  acompanhemos  a missa  parte  por parte e as respostas serão dadas.

Ritos Iniciais

Instrução Geral ao Missal Romano, n.º 24:

“Os ritos iniciais ou as partes que precedem a liturgia da palavra, isto é, cântico de entrada, saudação, ato penitencial, Senhor, Glória e  oração da coleta, têm o caráter de exórdio, introdução e preparação. Estes ritos têm por finalidade  fazer com que os  fiéis, reunindo-se em assembléia, constituam uma comunhão e se disponham para ouvir atentamente a Palavra de Deus e celebrar dignamente a Eucaristia”.

Comentário Inicial

Este  tem  por  fim  introduzir  os  fiéis  ao mistério  celebrado.  Sua  posição  correta  seria  após  a saudação  do  padre,  pois  ao  nos encontrarmos  com  uma  pessoa  primeiro  a  saudamos  para depois iniciarmos qualquer atividade com ela.

Canto de Entrada

“Reunido o povo, enquanto o sacerdote entra com os ministros, começa o canto de entrada. A  finalidade desse  canto  é  abrir  a  celebração,  promover  a  união  da  assembléia,  introduzir  no  mistério  do  tempo litúrgico ou da festa, e acompanhar a procissão do sacerdote e dos ministros”(IGMR n.25)

Durante o canto de entrada percebemos alguns elementos que compõem o início da missa:

a) O canto

Durante  a  missa,  todas  as  músicas  fazem  parte  de  cada  momento.  Através  da  música participamos  da missa  cantando.  A música  não  é  simplesmente  acompanhamento  ou  trilha musical da celebração: a música é também nossa forma de louvarmos a Deus. Daí a importância da participação de toda assembléia durante os cantos.

b) A procissão

O  povo  de  Deus  é  um  povo  peregrino,  que  caminha  rumo  ao  coração  do  Pai.  Todas  as procissões têm esse sentido: caminho a se percorrer e objetivo a que se quer chegar.

c) O beijo no altar

Durante  a missa,  o  pão  e  o  vinho  são  consagrados  no  altar,  ou  seja,  é  no  altar  que  ocorre  o mistério  eucarístico. O presidente da  celebração  ao  chegar beija o  altar  em  sinal de  carinho  e reverência por tão sublime lugar. Por incrível que possa parecer, o local mais importante de uma igreja é o altar, pois ao contrário do que muita gente pensa,  as hóstias guardadas no  sacrário nunca poderiam  estar  ali  se não houvesse um altar para consagrá-las.

Saudação

a)  Sinal da Cruz

O  presidente da  celebração  e  a  assembléia  recordam-se  por  que  estão  celebrando  a missa. É, sobretudo  pela  graça  de  Deus,  em  resposta  ao  seu  amor.  Nenhum  motivo  particular  deve sobrepor-se  à  gratuidade.  Pelo  sinal  da  cruz  nos  lembramos  que  pela  cruz  de  Cristo  nos
aproximamos da Santíssima Trindade.

b) Saudação

Retirada na sua maioria dos cumprimentos de Paulo, o presidente da celebração e a assembléia se  saúdam. O  encontro  eucarístico  é movido  unicamente  pelo  amor de Deus, mas  também  é encontro com os irmãos.

Ato Penitencial

Após saudar a assembléia presente, o sacerdote convida toda assembléia a, em um momento de silêncio, reconhecer-se pecadora e necessitada da misericórdia de Deus. Após o reconhecimento da necessidade da misericórdia divina, o povo a pede em forma de ato de contrição: Confesso a
Deus  todo-poderoso… Em  forma de diálogo por versículos bíblicos: Tende  compaixão de nós… Ou em forma de ladainha: Senhor, que viestes salvar… Após, segue-se a absolvição do sacerdote. Tal ato  pode  ser  substituído  pela  aspersão  da  água,  que  nos  convida  a  rememorar-nos  o  nosso compromisso assumido pelo batismo e através do simbolismo da água pedirmos para sermos purificados.

Cabe  aqui  dizer,  que  o  “Senhor,  tende  piedade”  não  pertence  necessariamente  ao  ato penitencial.  Este  se  dá  após  a  absolvição  do  padre  e  é  um  canto  que  clama  pela  piedade  de Deus. Daí ser um erro omiti-lo após o ato penitencial quando este é cantando. O “Senhor, tende piedade” poderá  fazer parte do ato penitencial, mas para  isso é necessário a  inserção de uma característica de Deus. Ainda  com  relação  ao  texto do  “Senhor…”,  os vocativos presentes  em cada frase referem-se a Jesus Cristo, aquele que intercede ao Pai por nossos pecados.

Hino de Louvor

Espécie de  salmo composto pela  Igreja, o glória é uma mistura de  louvor e  súplica, em que a assembléia  congregada  no  Espírito  Santo,  dirige-se  ao  Pai  e  ao  Cordeiro.  é  proclamado  nos domingos  –  exceto  os  do  tempo  da  quaresma  e  do  advento  –  e  em  celebrações  especiais,  de
caráter mais solene.

Oração da Coleta

Encerra o rito de entrada e introduz a assembléia na celebração do dia. “Após o convite do celebrante, todos se conservam em silêncio por alguns instantes, tomando consciência de  que  estão  na  presença  de Deus  e  formulando  interiormente  seus  pedidos. Depois  o  sacerdote  diz  a
oração que se costuma chamar de ‘coleta’, a qual a assembléia dá o seu assentimento com o ‘Amém’ final” (IGMR 32).

Dentro  da  oração  da  coleta  podemos  perceber  os  seguintes  elementos:  invocação,  pedido  e finalidade.

Liturgia da Palavra

Não existe celebração na liturgia cristã em que não se proclame a Palavra de Deus. Isto porque a Igreja  antes  de  tornar  presente  os mistérios  de  Cristo  ela  os  contempla.  Pela  palavra,  Deus convoca e recria o seu povo, através de uma resposta de conversão da parte de quem a ouve.

“A parte principal da Palavra de Deus é constituída pelas leituras da Sagrada Escritura e pelos Cânticos que ocorrem entre elas, sendo desenvolvida e concluída pela homilia, a profissão de fé e a oração universal ou dos fiéis. Pois nas leituras explanadas pela homilia Deus fala ao seu povo, revela o mistério da redenção e da salvação, e oferece alimento espiritual.; e o próprio Cristo, por sua palavra, se acha presente no meio dos  fiéis.  Pelos  cânticos,  o  povo  se  apropria  dessa  palavra  de Deus  e  a  ele  adere  pela  profissão  de  fé. Alimentado por esta palavra, reza na oração universal pelas necessidades de toda a Igreja e pela salvação do mundo inteiro” (IGMR 33).

1ª, 2ª  Leituras e Salmo

Para  compreendermos  melhor  a  liturgia  da  Palavra  é  necessário  distinguir  entre  a  liturgia dominical e a liturgia dos dias da semana. A primeira é dividida em três anos, nos quais a Igreja procura  ler  toda  a Bíblia. Nos dias de domingo  e  festas o  esquema das  leituras  é  o  seguinte: Primeira  leitura,  salmo,  segunda  leitura,  aclamação  ao  Evangelho  e  evangelho.  A  primeira leitura  e  o  evangelho  tratam geralmente do mesmo  assunto, para mostrar  Jesus  como  aquele que  leva  à  plenitude  a  antiga  aliança;  o  salmo,  é  uma meditação  da  leitura,  uma  espécie  de comentário  cantado  – daí  ser  insubstituível;  a  segunda  leitura  é  feita de  forma  semi-contínua, sempre extraída da carta do apóstolo. Já a liturgia dos dias da semana não apresenta a segunda leitura, e toda a Bíblia é lida todos os anos.

Evangelho

É  o  ponto  alto  da  liturgia  da  Palavra.  Cristo  torna-se  presente  através  de  sua  Palavra  e  da pessoa  do  sacerdote.  Tal momento  é  revestido  de  cerimônia,  devido  sua  importância.  Todos ficam de pé e aclamam o Cristo que  fala. O diácono ou o padre dirigem-se à mesa da palavra para proclamá-la. O que proclama a Palavra do evangelho menciona a presença do Cristo vivo entre  nós.  Faz  o  sinal  da  cruz  na  testa,  na  boca  e  no  coração  para  que  todo  o  ser  fique impregnado da mensagem do Evangelho:  a mente  a  acolha,  a boca  a proclame  e o  coração  a sinta e a viva.

Homilia

A homilia faz a transição entre a palavra de Deus e sua resposta. É feita exclusivamente por um ministro  ordenado,  pois  este  recebeu,  através  da  imposição  das  mãos  o  dom  especial  para pregar  o  Evangelho. A  função  da  homilia  é  confrontar  o mistério  celebrado  com  a  vida  da
comunidade.  Na  homilia,  o  sacerdote  anima  o  povo,  exorta-o  e  se  for  preciso  o  denuncia, mostrando a distância entre o ideal proposto e a vida concreta do povo.

Profissão de fé

“O  símbolo  ou  profissão  de  fé,  na  celebração  da  missa,  tem  por  objetivo  levar  o  povo  a  dar  seu assentimento e resposta à palavra de Deus ouvida nas leituras e homilia, bem como lhe recordar a regra da fé antes de iniciar a celebração da eucaristia” (IGMR 43).

A  profissão  de  fé  consiste  na  primeira  resposta  dada  à  Palavra  de  Deus.  Nela  cremos  e aderimos, manifestando também nossa fé naquela que possui a incumbência de perpetuar esta palavra: a Igreja Católica. Possui duas formas, sendo a mais extensa proclamada em solenidades
especiais, como o Natal, Anunciação etc.

Preces da comunidade

“Na oração dos fiéis ou oração universal, a assembléia dos fiéis, iluminada pela graça de Deus, à qual de certo modo  responde,  pede normalmente  pelas  necessidades  da  Igreja  universal  e  da  comunidade  local, pela salvação do mundo, pelos que se encontram em qualquer necessidade e por grupos determinados de pessoas” (IGMR 30).

O povo de Deus ouve a Palavra de Deus, a acolhe e dá a sua resposta. Esta pode ser em forma de  louvor, de  súplica,  adoração  ou  intercessão. Pede  a Deus  a  graça de  poder  realizar  a  sua vontade; porém ele não é egoísta: pede por todos para que também possam realizar esta palavra
e assim encontrar o sentido para suas vidas. Pede pela Igreja, para que esta tenha coragem de continuar proclamando  esta palavra. Pede por aqueles que  sofrem  e pelas autoridades  locais, para que concretizem o Reino de Deus entre nós. Finalmente faz seus pedidos pela comunidade
local.

Talvez seria de  imensa riqueza para a  liturgia se as preces  fossem  feitas de modo espontâneo, mas  para  isso  seria  necessário  ordem  e  instrução  por  parte  da  assembléia.  Seria  necessário lembrar que a resposta à Palavra de Deus nunca se dá de modo egoísta.

Liturgia Eucarística

Na  liturgia  eucarística  atingimos  o  ponto  alto  da  celebração. Durante  ela  a  Igreja  irá  tornar presente o sacrifício que Cristo fez para nossa salvação. Não se trata de outro sacrifício, mas sim de  trazer à nossa  realidade a salvação que Deus nos deu. Durante esta parte a  Igreja eleva ao
Pai,  por  Cristo,  sua  oferta  e  Cristo  dá-se  como  oferta  por  nós  ao  Pai,  trazendo-nos  graças  e bênçãos para nossas vidas.

“Cristo  na  verdade,  tomou  o  pão  e  o  cálice  em  suas mãos,  deu  graças,  partiu  o  pão  e  deu-os  aos  seus discípulos  dizendo:  ‘Tomai,  comei,  isto  é  o meu  Corpo,  este  é  o  cálice  do meu  Sangue.  Fazei  isto  em memória  de  mim’.  Por  isso,  a  Igreja  dispôs  toda  a  celebração  da  liturgia  eucarística  em  partes  que correspondam às palavras e gestos de Cristo: 1) no ofertório  leva-se o pão e o vinho com água,  isto é, os
elementos  que Cristo  tomou  em  suas mãos; 2) na  oração  eucarística  rendem-se graças  a Deus por  toda obra  salvífica  e  o  pão  e  vinho  tornam-se  o Corpo  e  o  Sangue  de Cristo;  3)  pela  fração  do mesmo  pão manifesta-se  a  unidade  dos  fiéis,  e  pela  comunhão  recebem  o  Corpo  e  o  Sangue  do  Senhor  como  os discípulos o receberam das mãos do próprio Cristo” (IGMR 48).

É durante a  liturgia eucarística que podemos entender a missa como uma ceia, pois afinal de contas  nela  podemos  enxergar  todos  os  elementos  que  compõem  uma:  temos  a mesa  – mais propriamente a mesa da Palavra e a mesa do pão. Temos o pão e o vinho, ou seja o alimento sólido e líquido presentes em qualquer ceia. Tudo conforme o espírito da ceia pascal judaica, em que Cristo instituiu a eucaristia.

E  de  fato,  a  Eucaristia  no  início  da  Igreja  era  celebrada  em  uma  ceia  fraterna.  Porém  foram ocorrendo alguns abusos, como Paulo os sinaliza na Primeira Carta aos Coríntios. Aos poucos foi sendo inserida a celebração da palavra de Deus antes da ceia fraterna e da consagração. Já no século II a liturgia da Missa apresentava o esquema que possui hoje em dia.

Após  essa  lembrança  de  que  a Missa  também  é  uma  ceia,  podemos  nos  questionar  sobre  o sentido  de  uma  ceia,  desde  o  cafezinho  oferecido  ao  visitante  até  o mais  requintado  jantar diplomático.  Uma  ceia  significa,  entre  outros:  festa,  encontro,  união,  amor,  comunhão, comemoração,  homenagem,  amizade,  presença,  confraternização,  diálogo,  ou  seja,  vida. Aplicando  esses  aspectos  a  Missa,  entenderemos  o  seu  significado,  principalmente  quando vemos que é o próprio Deus que se dá em alimento. Vemos que a Missa também é um convívio
no Senhor.

A liturgia eucarística divide-se em:

Apresentação das Ofertas

Apesar de conhecida como ofertório, esta parte da Missa é apenas uma apresentação dos dons que serão ofertados  junto com o Cristo durante a consagração. Devido ao  fato de maioria das Missas  essa  parte  ser  cantada  não  podemos  ver  o  que  acontece  durante  esse  momento. Conhecendo esses aspectos poderemos dar mais sentido à celebração.

Analisemos  inicialmente os elementos do ofertório: o pão o vinho e a água. O que significam?

De  fato  foram  os  elementos  utilizados  por Cristo  na  última  ceia, mas  eles  possuem  todo  um significado especial:

1)  o pão e o vinho representam a vida do homem, o que ele é, uma vez que ninguém vive sem comer nem beber;
2)  representam também o que o homem faz, pois ninguém vai na roça colher pão nem na fonte buscar vinho;
3)  em Cristo  o  pão  e  o  vinho  adquirem  um  novo  significado,  tornando-se  o Corpo  e  o Sangue  de  Cristo.  Como  podemos  ver,  o  que  o  homem  é,  e  o  que  o  homem  faz adquirem um novo sentido em Jesus Cristo.

E a água? Durante a apresentação das oferendas, o sacerdote mergulha algumas gotas de água no vinho. E o porquê disso? Sabemos que no tempo de Jesus os judeus bebiam vinho diluído em um  pouco  de  água,  e  certamente  Cristo  também  devia  fazê-lo  pois  era  verdadeiramente homem. Por outro lado, a água quando misturada ao vinho adquire a cor e o sabor deste. Ora, as gotas de água representam a humanidade que se transforma quando diluída em Cristo.

Os tempos da preparação das ofertas:

a) Preparação do altar

“Em primeiro  lugar prepara-se o altar ou a mesa do Senhor, que é o centro de  toda  liturgia eucarística, colocando-se  nele  o  corporal,  o  purificatório,  o  cálice  e  o  missal  ,  a  não  ser  que  se  prepare  na credência” (IGMR 49).

b) Procissão das ofertas

Neste momento,  trazem-se  os dons  em  forma de procissão. Lembrando  que  o pão  e  o vinho representam o que é o homem e o que ele faz, esta procissão deve revestir-se do sentimento de doação, ao invés de ser apenas uma entrega da água e do vinho ao sacerdote.

c) Apresentação das ofertas a Deus

Este momento passa despercebido da maioria das pessoas devido ao canto do ofertório. O ideal seria que todo o povo participasse desse momento, sendo o canto usado apenas durante a procissão e a coleta fosse feita sem as pessoas saírem de seus locais. O canto  não  é  proibido,  mas  deve  procurar  durar  exatamente  o  tempo  da  apresentação  das oferendas, para que o sacerdote não fique esperando para dar prosseguimento à celebração.

d) A coleta do ofertório

Já  nas  sinagogas  hebraicas,  após  a  celebração  da  Palavra  de  Deus,  as  pessoas  costumavam deixar alguma oferta para auxiliar as pessoas pobres. E de  fato, este momento do ofertório só tem sentido se reflete nossa atitude interior de dispormos os nossos dons em favor do próximo.
Aqui,  o  que  importa não  é  a  quantidade, mas  sim  o nosso desejo de  assim  como Cristo, nos darmos  pelo  próximo.  Representa  o  nosso  desejo  de  aos  poucos,  deixarmos  de  celebrar  a eucaristia para nos tornarmos eucaristia.

e) O lavar as mãos

Após o sacerdote apresentar as oferendas ele lava suas mãos. Antigamente, quando as pessoas traziam os elementos da celebração de suas casas, este gesto  tinha caráter utilitário, pois após pegar  os  produtos  do  campo  era  necessário  que  lavasse  as  mãos.  Hoje  em  dia  este  gesto
representa  a  atitude,  por  parte  do  sacerdote,  de  tornar-se  puro  para  celebrar  dignamente  a eucaristia.

f) Orai Irmãos…

Agora o sacerdote convida toda assembléia à unir suas orações à ação de graças do sacerdote.

g) Oração sobre as Oferendas

Esta oração  coleta os motivos da  ação de graças  e  lança no que  segue, ou  seja,  a oração eucarística. Sempre muito rica, deve ser acompanhada com muita atenção e confirmada com o nosso amém!

A Oração Eucarística

É na oração eucarística em que atingimos o ponto alto da celebração. Nela, através de Cristo que se dá por nós, mergulhamos no mistério da Santíssima Trindade, mistério da nossa salvação: “A  oração  eucarística  é  o  centro  e  ápice de  toda  celebração,  é prece de  ação de graças  e  santificação. O sacerdote convida o povo a elevar os corações ao Senhor na oração e na ação de graças e o associa à prece que dirige a Deus Pai por Jesus Cristo em nome de toda comunidade. O sentido desta oração é que toda a assembléia se una com Cristo na proclamação das maravilhas de Deus e na oblação do sacrifício” (IGMR 54).

Para melhor  compreendermos  a  oração  eucarística  é  necessário  que  tenhamos  em mente  as palavras: ação de graças, sacrifício e páscoa.

A missa é ação de graças

Como  já  foi  referida anteriormente, a missa  também pode  ser  chamada de eucaristia, ou  seja, ação de graças. E a partir da passagem do servo de Abraão pudemos  ter uma noção do que é uma oração eucarística ou de ação de graças. Pois bem, esta atitude de ação de graças recebe o
nome  de  berakah  em  hebraico,  que  traduzindo-se  para  o  grego  originou  três  outras  palavras: euloguia,  que  traduz-se  por  bendizer;  eucharistia,  que  significa  gratidão  pelo dom  recebido de graça; e exomologuia, que significa reconhecimento ou confissão.

Diante  da  riqueza  desses  significados  podemos  nos  perguntar:  quem  dá  graças  a  quem? Ou melhor  dizendo,  quem  dá  dons,  quem  dá  bênçãos  a  quem? Diante  dessa  pergunta  podemos perceber que Deus dá graças a  sim mesmo, uma vez que  sendo uma comunidade perfeita o Pai ama o Filho e se dá por ele e o Filho também se dá ao Pai, e deste amor surge o Espírito Santo.

Por sua vez, Deus dá graças ao homem, uma vez que não se poupou nem de dar a si mesmo por nós e em resposta o homem dá graças a Deus, reconhecendo-se criatura e entregando-se ao amor de Deus. Ora, o homem também dá graças ao homem, através da doação ao próximo a exemplo de Deus.  Também  o  homem  dá  graças  a  natureza,  respeitando-a  e  tratando-a  como  criatura  do mesmo  Criador.  O  problema  ecológico  que  atravessamos  é,  sobretudo,  um  problema eucarístico. A natureza também dá graças ao homem, se respeitada e amada. A natureza dá graças a Deus estando à serviço de seu criador a todo instante.

A partir desta visão da ação de graças começamos a perceber que a Missa não reduz-se apenas a uma  cerimônia  realizada  nas  Igrejas,  ao  contrário,  a  celebração da Eucaristia  é  a  vivência da ação de Deus em nós,  sobretudo através da  libertação que Ele nos  trouxe em  seu Filho  Jesus.

Cristo é a verdadeira e definitiva libertação e aliança, levando à plenitude a libertação do povo judeu do Egito e a aliança realizada aos pés do monte Sinai.

A missa é sacrifício

Sacrifício é uma palavra que possui a mesma raiz grega da palavra sacerdócio, que do latim temos sacer-dos,  o  dom  sagrado. O  dom  sagrado  do  homem  é  a  vida,  pois  esta  vem  de Deus.  Por natureza o homem é um sacerdote. Perdeu esta condição por causa do pecado. Sacrifício, então, significa o que é feito sagrado. O homem torna sua vida sagrada quando reconhece que esta é dom  de  Deus.  Jesus  Cristo  faz  justamente  isso:  na  condição  de  homem  reconhece-se  como criatura  e  se  entrega  totalmente  ao  Pai,  não  poupando  nem  sua  própria  vida.  Jesus  nesse momento está representando toda a humanidade. Através de sua morte na cruz dá a chance aos homens  e  às  mulheres  de  novamente  orientarem  suas  vidas  ao  Pai.

Com isso queremos tirar aquela visão negativa de que sacrifício é algo que representa a morte e a dor. Estas coisas são necessárias dentro do mistério da salvação pois só assim o homem pode reconhecer sua fraqueza e sua condição de criatura.

A Missa também é Páscoa

A Páscoa foi a passagem da escravidão do Egito para a liberdade, bem como a aliança selada no monte Sinai entre Deus e o povo hebreu. E diante desses fatos o povo hebreu sempre celebrou essa passagem, através da Páscoa anual, das celebrações da Palavra aos sábados, na sinagoga e
diariamente, antes de levantar-se e deitar-se, reconhecendo a experiência de Deus em suas vidas e  louvando a Deus pelas experiências pascais vividas ao  longo do dia. O povo  judeu vivia em atitude de ação de graças, vivendo a todo instante a Páscoa em suas vidas.

E é dentro da celebração da Páscoa anual dos  judeus que Jesus Cristo institui o sacramento da Eucaristia, dando o seu corpo como sinal de libertação definitiva e dando seu sangue para selar a nova e eterna aliança. Em Cristo dá-se a verdadeira páscoa, o encontro definitivo do homem
com Deus.

Fazei isto em memória de mim

Cristo ao  instituir a Páscoa-rito para os cristãos deixa uma ordem ao final dela: “Fazei  isto em memória de mim”. Mas o que pode significar esta ordem? Pode significar o fato de que, todas as vezes que quisermos celebrar a Páscoa devemos dar graças, consagrar o pão e reparti-lo com
os  irmãos. Mas  será  que  apenas  foi  isto  que  Cristo mencionou  na  última  ceia?  Durante  as palavras  da  consagração  é  muito  forte  a  idéia  de  doação:  “Tomou  o  pão  e  o  deu  a  seus discípulos”,  “Isto  é o meu  corpo,  isto  é o meu  sangue  dados por vós”. A meu ver, Cristo nos
chama a ser pão e vinho dado aos irmãos. Cristo nos chama a darmos o nosso corpo e o nosso sangue para, desse modo, fazermos memória a ele.

O  esquema  da  oração  eucarística  segue  aquele  esquema  referente  a  berakah  dos  judeus.  Em resumo temos o seguinte:

1)  O  fato maravilhoso  – Expresso no prefácio,  relembra os benefícios, as bênçãos de Deus em nossas vidas.
2)  Admiração – Sentimento que atravessa toda oração.
3)  Exclamações e aclamações da assembléia ao longo da oração eucarística.
4)  Proclamação ou a memória dos benefícios, através da consagração das espécies.
5)  Pedidos e intercessões
6)  Louvor final – Por Cristo, com Cristo, em Cristo…

Após essas breves considerações vejamos agora como se esquematiza a oração eucarística:

a) Definição

“Trata-se de uma ação de graças ao Pai, por Cristo, no Espírito Santo. A  Igreja rende graças a Deus Pai pelas maravilhas operadas por Cristo, no Espírito Santo. Ela louva, bendiz e agradece ao Pai. Comemora o Filho. Invoca o Espírito Santo”.

b) Prefácio

Após o diálogo  introdutório, o prefácio possui a  função de  introduzir a assembléia na grande ação de graças que se dá a partir deste ponto. Existem inúmeros prefácios, abordando sobre os mais diversos temas: a vida dos santos, Nossa Senhora, Páscoa etc.

c) O Santo

É a primeira grande aclamação da assembléia a Deus Pai em Jesus Cristo. O correto é que seja sempre cantado.

d) A invocação do Espírito Santo

Através dele Cristo realizou sua ação quando presente na história e a realiza nos tempos atuais. A  Igreja  nasce do  espírito  Santo,  que  transforma  o pão  e  o vinho. A  Igreja  tem  sua  força  na Eucaristia.

e) A consagração

Deve ser toda acompanhada por nós. É reprovável o hábito de permanecer-se de cabeça baixa durante esse momento. Reprovável ainda é qualquer tipo de manifestação quando o sacerdote ergue  a hóstia, pois  este  é um momento  sublime  e de profunda  adoração. Nesse momento o
mistério do amor do Pai é renovado em nós. Cristo dá-se por nós ao Pai trazendo graças para nossos corações. Daí ser esse um momento de profundo silêncio.

f) Preces e intercessões

Reconhecendo a ação de Cristo pelo Espírito Santo em nós, a  Igreja pede a graça de abrir-se a ela, tornando-se uma só unidade. Pede para que o papa e seus auxiliares sejam capazes de levar o Espírito Santo a todos. Pede pelos fiéis que já se foram e pede a graça de, a exemplo de Nossa
Senhora e dos santos, os fiéis possam chegar ao Reino para todos preparados pelo Pai.

g) Doxologia Final

É  uma  espécie de  resumo de  toda  a  oração  eucarística,  em  que  o  sacerdote  tendo  o Corpo  e Sangue  de  Cristo  em  suas  mãos  louva  ao  Pai  e  toda  assembléia  responde  com  um  grande “amém”, que confirma tudo aquilo que ela viveu.

Rito da Comunhão

A oração eucarística representa a dimensão vertical da Missa, em que nos unimos plenamente a Deus em Cristo. Após alcançarmos a comunhão com Deus Pai, o desencadeamento natural dos fatos  é  o  encontro  com  os  irmãos,  uma  vez  que  Cristo  é  único  e  é  tudo  em  todos.  Este  é  o
momento  horizontal  da  Missa.  Tem  também  esse  momento  o  intuito  de  preparar-nos  ao banquete eucarístico.

a)  O Pai-Nosso

É o desfecho natural da oração eucarística. Uma vez que unidos a Cristo e por ele reconciliados com Deus, nada mais oportuno do que dizer: Pai nosso… Esta oração deve ser rezada em grande exaltação, se possível cantada. Após o Pai Nosso segue o seu embolismo, ou seja, a continuação
do  último  pensamento  da  oração.  Segue  aqui  uma  observação:  o  único  local  em  que  não dizemos “amém” ao final do Pai Nosso é na Missa, dada a continuidade da oração expressa no embolismo.

b)  Oração pela paz

Uma vez reconciliados em Cristo, pedimos que a paz se estenda a  todas as pessoas, presentes ou não, para que possam viver em plenitude o mistério de Cristo. Pede-se também a Paz para a Igreja, para que, desse modo, possa continuar sua missão.

c)  O cumprimento da Paz

É um gesto simbólico, representando nosso bem-querer ao próximo. Por ser um gesto simbólico não há a necessidade em sair do  local para cumprimentar a todos na Igreja. Se todos tivessem em  mente  o  simbolismo  expresso  nesse  momento  não  seria  necessária  a  dispersão  que  o caracteriza  na  maioria  dos  casos.  Também  não  é  conveniente  que  se  cante  durante  esse momento,  uma  vez  que  deveria  durar  pouco  tempo.  A  música  pode  ficar  para  Missas celebradas em pequenos grupos.

d)  O Cordeiro de Deus

O sacerdote e a assembléia se preparam em silêncio para a comunhão. Neste momento o padre mergulha um pedaço do pão no vinho, resentando a união de Cristo presente por inteiro nas duas espécies. A seguir  todos  reconhecem sua pequenez diante de Cristo e como o Centurião exclamam: Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma só palavra e serei salvo. Cristo não nos dá apenas sua palavra, mas dá-se por amor a cada um de nós.

e)  A comunhão

Durante esse momento a assembléia dirige-se à mesa eucarística. O canto deve procurar ser um canto  de  louvor moderado,  salientando  a  doação  de  Cristo  por  nós.  A  comunhão  pode  ser recebida nas mãos ou na boca, tendo o cuidado de, no primeiro caso, a mão que recebe a hóstia não  ser  a mesma  que  a  leva  a  boca. Aqueles  que por um motivo  ou  outro não  comungam  é importante que façam desse momento também um momento de encontro com o Cristo. Após a comunhão segue-se a ação de graças, que pode ser feita em forma de um canto de meditação ou pelo silêncio, que dentro da liturgia possui sua linguagem. O que não pode é esse momento ser esquecido ou utilizado para conversar com que está ao nosso lado.

f)  Oração após a comunhão

Infelizmente  criou-se  o mau  costume  em  nossas  assembléias  de  se  fazer  essa  oração  após  os avisos, como uma espécie de convite apressado para se  ir embora. Esta oração  liga-se ainda a liturgia eucarística, e é o seu fechamento, pedindo a Deus as graças necessárias para se viver no
dia-a-dia tudo que se manifestou perante a assembléia durante a celebração.

Ritos Finais

“O rito de encerramento da Missa consta fundamentalmente de três elementos: a saudação do sacerdote, a bênção, que em certos dias e ocasiões é enriquecida e expressa pela oração sobre o povo, ou por outra forma mais  solene,  e  a  própria  despedida,  em  que  se  despede  a  assembléia,  afim  de  que  todos  voltem  ás  suas atividades louvando e bendizendo o Senhor com suas boas obras” (IGMR 57).

Para muitos, este momento é um alívio, está cumprido o preceito dominical. Mas para outros, esta parte é o envio, é o início da transformação do compromisso assumido na Missa em gestos e atitudes concretas. Ouvimos a Palavra de Deus e a aceitamos em nossas vidas. Revivemos a
Páscoa de Cristo, assumindo também nós esta passagem da morte para a vida e unimo-nos ao sacrifício de Cristo ao reconhecer nossa vida como dom de Deus e orientando-a em sua direção.

Sem demais delongas, este momento é o oportuno para dar-se avisos à comunidade, bem como para as últimas orientações do presidente da celebração. Após, segue-se a bênção do sacerdote e a despedida. Para alguns  liturgistas, esse momento é um momento de envio, pois o sacerdote
abençoa  os  fiéis  para  que  estes  saiam  pelo mundo  louvando  a Deus  com  palavras  e  gestos, contribuindo assim para sua transformação.

Vejamos o porquê disso.

Passando  a despedida para o  latim  ela  soa da  seguinte  forma:  “Ite, Missa  est”. Traduzindo-se para o português, soa algo como “Ide, tendes uma bênção e uma missão a cumprir”, pois em latim, missa  significa  missão  ou  demissão,  como  também  pode  significar  bênção.  Nesse  sentido, eucaristia significa bênção, o que não deixa de ser uma realidade,  já que através da doação de seu  Filho,  Deus  abençoa  toda  a  humanidade.  De  posse  desta  boa-graça  dada  pelo  Pai,  os cristãos  são  re-enviados  ao  mundo  para  que  se  tornem  eucaristia,  fonte  de  bênçãos  para  o próximo. Desse modo a Missa reassume todo seu significado.

Conclusão

O intuito maior é mostrar a Missa como algo dinâmico, que não se reduz a apenas uma série de ritos realizados no interior da nossa Igreja; pelo contrário, através da Missa tornamos presentes em  nós  Cristo,  e  por  nós  tornamos  Cristo  presente  no mundo. Daí  ser  a  eucaristia  fonte  da
Igreja.

Não poderíamos também deixar de procurar despertar a consciência para o mistério celebrado, bem como atentar com relações a gestos e posturas durante a Missa que possuem todo um significado e que enriquecem ainda mais as nossas celebrações. Que todos aqueles que tiveram a oportunidade de ler o conteúdo destas páginas possam, cada vez mais, entender o significado do “Ite, Missa est!”, e dessa forma contribuírem na concretização do Reino de Deus.

 

Fonte: Paróquia Nossa Senhora Aparecida e São Lourenço – São Lourenço da Serra/SP

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Sobre Alex C. Vasconcelos

Casado, 32 anos, pai de uma princesa, Advogado, Acólito na Paróquia do Divino Espírito Santo em Maceió/AL.
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