Meditações para o Dia dos Fieis Defuntos

A morte é uma realidade onipresente na vida humana, nos grandes e pequenos momentos, em cada decepção, em cada pranto, em cada frustração, em cada solidão, em cada mal físico ou moral, ei-la ali! Em nível social, a pobreza, a injustiça estrutural, as guerras… Tudo isso é experiência de morte, de ameaça à vida e, mais radicalmente ainda, ao próprio sentido da vida! Tais experiências chegam ao cume com a experiência da morte física, última derrota e último medo do homem.

Efetivamente, se há algo de que podemos estar certo é que morreremos um dia. Não se pode escamotear a morte! E, no entanto, não nos acostumamos com a morte, não a aceitamos!

Isto porque ela abala os alicerces da existência humana, coloca em questão o sentido da vida e revela sem piedade a limitação do homem, “ser para a morte”! É verdade que há mortes e mortes. Por exemplo: aceita-se com maior resignação a morte de uma pessoa de oitenta e cinco anos do que a de uma criança de seis. Fica-se indiferente ou até se esboça, como bom cidadão, um gesto de aprovação diante da notícia da morte de dois ladrões em um tiroteio com a polícia. Mas fica-se horrorizado quando um automóvel atropela uma mãe com seu filhinho. O certo é que esses ladrões ou essa mãe ou esse ancião poderiam ter sido um de nós. E, com certeza, aIguma vez o será. Somente uma. E então as coisas mudam: já não mais existiremos neste mundo; quebrar-se-á aquela única experiência que temos: viver no mundo que nos precedeu e, agora, continuará sem nós e nós, sem ele. É tremendo: um salto no desconhecido! Ninguém quer morrer, ao menos se a psique estiver medianamente sã, porque a morte não é somente um fato biológico. Certamente ela tem uma base biológica, pois as pessoas são seres corpóreos, mas é muito mais que isso: quem morre é a pessoa.

Exatamente por isso, a morte coloca em questão o sentido da vida, o significado da história, a validade dos imperativos éticos absolutos, como justiça, liberdade, dignidade; a dialética presente-futuro; a possibilidade da esperança e da delimitação do homem, sujeito desta esperança, o sentido ou menos do indivíduo.

Assim, o que está em jogo é o destino de cada um de nós: sou eu, não outro, quem quer viver, quem experimenta a vida e seu valor, e, no entanto, morrerá, correndo o risco de deixar de existir como pessoa. Assim, uma coisa é clara: questionar o sentido da morte é questionar o sentido da vida.

As Religiões e a Morte

Ainda que morrer seja uma experiência que todos faremos, inapelavelmente, há modos muito diversos de enfrentar a morte, de vivenciá-la.

No Ocidente, de modo geral, há hoje a tendência doentia e imatura, covarde mesmo, de esconder a morte, de não integrá-la à vida: trata-se de algo que não deve aparecer, algo de mau gosto, algo que fere o produzir, economizar, consumir do mundo atual.

No nossa sociedade ocidental, do consumo, do bem-estar, de um egocentrismo totalmente imaturo e desarrumado, a morte tem assumido ares de tabu. Os cemitérios são apresentados como parques e jardins, os velatórios aparecem como confortáveis apartamentos, as UTI’s tornam-se ambientes extremamente frios e impessoais. Nos hospitais, desapareceu a palavra morte: agora se entra em óbito!

Assim, a morte é encurralada em lugares “especializados”. Num contexto desses, já não é possível falar na possibilidade de uma morte cristã consciente, recebendo os sacramentos, coma serena consciência de que se está caminhando para o término da peregrinação terrena. Até os que recebem os sacramentos, em geral, ao receberem, já estão inconscientes. É incrível: preparamo-nos para tudo na vida e a imaturidade pueril de nossa civilização pós-cristã nos impede de que nos preparemos para o momento mais solene, mais importante e definitivo da nossa existência!

Esta postura ocidental rompe de modo alienante com o modo humano de encarar a morte. Efetivamente, sempre houve, em todas as religiões, fé na vida após a morte. Esta, a morte, não pode ser e não é a última palavra na consciência da humanidade! Tanto que, segundo alguns estudiosos, podem-se encontrar algumas coincidências básicas nas várias representações que as diversas religiões fazem da morte e da vida após a morte. Senão vejamos:

(1) Todas as religiões estão conscientes da necessidade de redenção do homem, de um “algo mais” que descortina o sentido último da sua vida. Para as religiões, o homem é um “ser incompleto”, um “ser aberto”, um ser que se debate entre suas ânsias de uma felicidade plena e sua concreta situação de caducidade, ignorância, falta de liberdade, sofrimento e morte. Em todas as religiões, esse grito de necessidade de salvação e libertação é latente. E tal saudade, tal anseio são a mais alta expressão da humanidade, da sua dignidade e irredutibilidade a qualquer manipulação.

(2) Não apenas o cristianismo, mas todas as religiões apontam algo Absoluto, Último, Incondicionado. E sabem que essa Realidade última não é diretamente acessível à experiência humana, que ela mesma deve manifestar-se, revelar-se, vir ao encontro do homem, e que somente se chega a ela através da renúncia e da morte.

(3) Todas as religiões tem seus “profetas” e os ouvem, isto é, ouvem aqueles que são para os adeptos “homens iluminados” que receberam as verdades últimas e se tornaram porta-vozes do Absoluto, mestres e modelos, propiciando a seus seguidores um caminho) rumo à verdade e à salvação.

Pense bem, meu Leitor: o fenômeno religioso (aqui não importa se certa religião é verdadeira ou não) é uma realidade radicalmente humana; no fundo é o inconformismo do coração humano com uma existência sem sentido, espatifada em coisinhas de cada dia, em pequenos projetos, mas sem um Sentido que a tudo dê sentido; o fenômeno religioso é o total e sadio inconformismo do homem ante a morte, o absurdo da falta de sentido, do não ser!

Duas visões inconciliáveis

Face ao problema da morte, o consenso entre as religiões pode ser expresso assim:

As grandes religiões estão de acordo em que o homem, tal como costuma viver, vive numa situação de quebradura, de alienação, sem liberdade, sem plena identidade consigo mesmo, e que, portanto, o estado atual do homem é insatisfatório, doloroso, infeliz.

Por quê? Porque o homem tem que viver separado, alheio a essa Realidade última, da qual tem uma insuprimível saudade. Assim, encontra-se escondida sua verdadeira pátria, que constitui sua autêntica liberdade, a qual configura sua verdadeira identidade e que se chama de Incondicionado, Indispensável, Inexprimível, Absoluto ou de Divindade ou Deus ou como quer que se chame.

As grandes religiões estão de acordo em que o estádio final do homem será tal, que sua separação e alheamento da verdadeira realidade ficarão superados. Como? Na medida em que o homem renuncie à sua falsamente entendida autonomia e à sua ilusória autodisposição. Observe que nossa atual sociedade é a mais doentia e alienante que o homem já criou, pois alimenta precisamente estas duas mentiras: que somos autônomos, bastando-nos a nós mesmos e que podemos dispor de nós de modo absoluto como se a vida fosse nossa no sentido mais determinante! Em suma, todas as religiões convidam o homem a abandonar a sua polivalente e infantil vontade de autoafirmação e se deixar iluminar, transformar, regenerar e redimir por esta última Realidade; o que, por fim, como é natural, somente poderá ser alcançado de modo definitivo por meio da morte.

Mas, há também diferenças fundamentais entre as religiões no modo de encarar a morte. Tal diferença é marcada por dois grandes grupos religiosos: o semita (judaísmo, cristianismo e islamismo) e o hindu-europeu (hinduísmo, budismo, derivantes espiritualistas e pseudo-cristãs, etc):

(1) Na tradição judaico-cristã-islâmica, o mundo e esta vida são algo radicalmente positivo, criação boa de Deus. A salvação que se espera é a redenção deste mundo completo e das pessoas que vivem nele, transformadas pela ação divina. Portanto o mundo, incluindo a matéria, é bom, positivo e será plenificado por Deus. Nas religiões do Extremo Oriente, o mundo e também a individualidade das pessoas são mera aparência, engano, ilusão, “maya“. A salvação consiste, então, em libertar-se do mundo, fugir da matéria.

(2) No judaísmo-cristianismo-islamismo, prega-se uma única vida que perdura da concepção de cada pessoa até a eternidade. Somente uma vez se vive e se morre, somente uma vez se ressuscita (ressuscita a pessoa toda, corpo e alma). Esta vida é o espaço da liberdade, no qual o homem define seu destino eterno na acolhida do dom divino da salvação. Por outro lado, nas religiões de origem hindu (hinduísmo, budismo e derivados), a vida individual não tem grande significado: o caminho e a identificação com o Divino podem percorrer várias vidas, em sucessivas reencarnações, porque, em última instância, também o eu individual é uma ilusão: ao fim do caminho, o indivíduo e sua consciência se diluirão no Todo.

(3) Na tradição judaico-cristã-islâmica, o estado definitivo do homem é ser e plenitude pessoal diante da Realidade última, que é Deus. Ao contrário, a tradição do Extremo Oriente concebe esse estado definitivo como não-ser e vazio ou como lisa e plana identificação com um Todo divino.

Há ainda que considerar o fenômeno contemporâneo do ateísmo, típico produto da modernidade: o homem que crê ter alcançado a idade adulta da razão e se considera autossuficiente. Assim, Deus e a religião seriam simplesmente projeções do que o homem gostaria de ser. Nesta concepção, não há nada a fazer contra a morte, a não ser aceitá-la como uma necessidade natural, até que a ciência possa eliminá-la ou distanciá-la o máximo possível. Esta é uma atitude totalmente inumana e falsa, pois reprime de modo antinatural a sede mais profunda do coração humano, sede que norteia toda a sua existência e dá valor, alicerce e sentido às suas experiências, opções e projetos! Em outras palavras: a consciência de que existimos e de que a existência é um bem e, por outro lado, a percepção de que somos finitos, passageiros, contingentes, coloca-nos de modo inevitável ante a questão Realidade última, que é Deus. Fugir desse questão é desonesto, é viver irresponsavelmente!

A morte segundo a Sagrada Escritura

Agora podemos perguntar: como a Escritura encara a morte?

Ela trata da questão sempre sob o enfoque da fé. Nas Sagradas Escrituras jamais a vida e a morte são vistas em si mesmas, como meros fenômenos biológicos ou existenciais; vida e morte são vistas sempre em relação a Deus: é na fé que podemos compreender em profundidade o sentido do viver e do morrer.

Se o mundo atual já não sabe mais o que pensar da morte, é porque já não vive mais em profundidade e com seriedade a fé. Infelizmente, hoje em dia, crer parece que se tornou sinônimo de ser crédulo, supersticioso… Quando, na verdade, uma fé madura e consciente é sinal de profunda seriedade diante da vida e diante da morte.

É certo, no Antigo Testamento, que são as obras da nossa existência no mundo que determinam o mérito ou demérito da pessoa. O sheol (ou seja, a mansão dos mortos) aparece claramente, nas concepções mais antigas do Antigo Testamento, como o lugar da total passividade, de absoluta ausência de decisões: já não se pode mais refazer a existência temporal (cf. Sb 2-5). Não se vive duas ou mais vezes: a existência humana deve ser vivida diante de Deus com toda a seriedade e responsabilidade que o dom de existir exige!

No Novo Testamento também está presente a certeza de que o juízo vai depender das obras realizadas no tempo da vida terrena (cf. Mt 13,37ss; 25,34ss; Jo 3,17ss; 5,29; 12.47ss). A mesma convicção aparece na parábola do rico epulão (cf. Lc 16,19ss). Texto particularmente claro é 2Cor 5,10: “Pois teremos todos de comparecer perante o tribunal de Cristo. Aí cada um receberá segundo o que houver praticado pelo corpo, bem ou mal”. Também Hb 9,27: “Para os homens está estabelecido morrerem uma vez e logo em seguida virá o juízo”. Ambos os textos mostram claramente que a vida, dom precioso de Deus, de quem viemos e para quem vamos, é irrepetível e definitiva. O que nela plantamos será decisivo na hora de nossa morte!

Nós diante da morte

Atualmente, tanto a filosofia quanto a teologia ocupam-se, com especial interesse, da questão da morte.

O problema é que somente podemos falar da morte dos outros. Vemos os outros morrerem… Mas quem experimentou a morte, não fala mais, não volta aqui para nos contar sua experiência! Assim, é sempre difícil falar da morte, já que ninguém tem experiência da sua própria morte! É assim: quem morreu não pode falar sobre a morte e quem está falando sobre ela ainda não morreu para dizer como ela é em primeira pessoa!

Uma coisa é certa: com a morte, a condição humana chega a seu ponto culminante e também seu ponto crítico, pois esta experiência da morte toca o homem não somente pela dor da progressiva dissolução de seu corpo, pela depauperação de suas capacidades, como também pelo temor da desaparição perpétua, pois a morte traz em si a ameaça do nada, do vazio, do absurdo.

Não podemos, portanto, fazer de conta que a morte não existe ou, se existe, diz respeito aos outros e não a nós. Pelo contrário: a morte dos outros deve recordar-nos que também nós morreremos! Com ela acontece o fim da história para cada homem, com ela realiza-se o ponto crítico da passagem desta vida para uma outra situação – aquela que podemos esperar somente na fé.

Mas, vamos passo a passo no nosso raciocínio: é próprio de todo ser vivo, inclusive do ser humano, a mortalidade. Todo organismo vivo decai até chegar à morte natural. É verdade que a Escritura diz que a morte como nós a experimentamos agora, concretamente, é salário do pecado (cf. Rm 6,23). Por enquanto é importante compreender isso: a morte faz parte da vida; o homem é mortal! Não dá para dela escapar. A medicina pode prolongar a vida, mas não pode evitar a morte!

Mas, o que significa morrer? Primeiramente, a morte revela nossa finitude, nossa limitação! Que estranho é o ser humano: sonha com a vida, deseja a vida… Mas sabe que um dia morrerá! Aliás, o homem é o único ser que sabe que morrerá… Por isso mesmo, a morte não é somente uma questão física, biológica: não é apenas um corpo que morre e vira cadáver; é uma pessoa que morre! Eu não digo: “Meu corpo morre”, ao invés, digo e sinto: “Eu morro!”

E é interessante: em geral, aproximamo-nos da morte exatamente quando mais queremos viver, quando, já adultos, damos tanto valor à vida e somos já maduros. Em certo sentido, nunca estamos prontos para morrer, mas para viver. E é assim, já que Deus é o Deus vivo e nos criou para a vida. Santo Irineu já dizia: “A glória de Deus é o homem vivo!” Assim, a morte tem sempre um gostinho amargo, mesmo para quem crê. Como compreender isso?

Criados para a vida, condenados à morte…

Deus é Vida e criou-nos para a vida. É verdade que ele não nos criou para a morte, não é o autor da morte. A morte entrou no mundo pelo pecado: “Deus criou o homem para a incorruptibilidade e o tornou imagem de sua própria natureza. A morte entrou no mundo por inveja do diabo e a experimentarão os que a ele pertencem” (Sb 2,23s).

Por outro lado, também é verdade que Deus não nos criou para vivermos aqui eternamente. A Escritura não ensina que, se o homem não tivesse pecado iria viver aqui para sempre! Pelo contrário. O Eclesiástico diz claramente: “Da terra o Senhor formou o homem, e para ela o faz voltar. Aos homens concedeu dias contados e tempo medido. Ele disse-lhes: “Precavei-vos de toda injustiça”; e a cada um deu mandamentos em relação ao próximo” (Eclo 17,1-2.14).

Vejamos bem: Deus criou o homem e deu-lhe apenas um punhado de dias contados: o homem não viveria aqui eternamente… De qualquer modo, voltaria à terra, ao pó! E isso, mesmo que não tivesse pecado! Então, temos que conciliar essas duas idéias: Deus nos criou para a vida, não é o autor da morte e, por outro lado, mesmo sem o pecado morreríamos.

Já expliquei que a morte não é simplesmente uma questão física. Fomos criados para a comunhão com Deus e, mesmo sem o pecado, nossa comunhão com o Senhor somente seria plena na Glória. O homem, mesmo sem o pecado original, teria ainda que crescer muito na comunhão com Deus, até chegar ao cume desta comunhão na Glória. Ele não viveria aqui para sempre: passaria para a Glória. Esta passagem de modo algum teria o gosto de morte: seria, isto sim, uma feliz partida para o Deus da vida.

Ora, com o pecado, o homem distanciou-se de Deus e esta passagem passou a ser desintegradora, dolorosa; passou a ser uma morte! Em outras palavras: experimentar a saída deste mundo como uma morte, é conseqüência do pecado. Daí a palavra de Paulo: “O salário do pecado é a morte” (Rm 6,23). A morte, como nós experimentamos atualmente, na nossa situação de pecadores, não é somente uma questão biológica, física; é também uma decadência pessoal, existencial. É dolorosa no corpo e na alma! Tem um gosto de derrota, de salto no escuro, de pulo no desconhecido! E não adianta fingir que a morte não existe!

Assim, o que nossa fé nos ensina é exatamente isso: Deus não é o autor dessa situação de morte em que vivemos: as mortes de cada dia, de cada derrota, de cada sofrimento, de cada injustiça, traição ou lágrima… Tudo isso é conseqüência de uma humanidade pecadora…. Tampouco Deus é o autor da última morte, daquela que marca o término da nossa vida terrena… Se a experimentamos como derrota, dissolução, salto no escuro… é devido à situação de pecado. Se o homem não tivesse dito “não” a Deus, não experimentaria a partida deste mundo como morte, como derrota dolorosa, como salto no escuro…

Em Cristo, o sentido na nossa morte

Deus não é o autor da morte. É verdade que o Senhor não nos criou para vivermos aqui para sempre: desde o início Deus nos criou para que passássemos deste mundo para a Glória, para uma comunhão mais plena com ele.

Esta passagem, no entanto, não teria o “gosto” de morte, de medo, de destruição, de derrota. A morte como a experimentamos atualmente, morte que dá medo, que entristece, está vinculada ao pecado de uma humanidade que disse não a Deus. Lembre-se, meu Leitor, que o homem, desde o início, desde que pecou, passou a fugir do encontro com Deus: “O Senhor Deus chamou o homem, dizendo: ‘Onde estás?’ E este respondeu: ‘Ouvi teus passos no jardim. Fiquei com medo porque estava nu, e me escondi” (Gn 3,9-10).

É neste sentido que Paulo dizia que o salário do pecado é a morte! Morrer tornou-se apavorante, passou a ter o gosto de derrota e salto no escuro! Por isso mesmo a experiência de morrer tem um caráter de escravidão, tirania e absurdo, contra os quais não se pode fazer nada! O homem que passaria para a Glória, deve, agora, experimentar esta sua passagem como uma morte: “De morte morrerás!” (Gn 2,17)

Mas, então, com o nosso pecado, a morte seria simplesmente derrota amarga? Somos destinados ao nada? Não há mais esperança? Não! Para nós, cristãos, há uma grande esperança! Certamente, também nós nos perturbamos e nos angustiamos diante da proximidade da morte… Mas, até o próprio Jesus ficou perturbado e angustiado diante dela, tanto que chorou diante de morte de seu amigo Lázaro: “Quando viu que Maria e todos os judeus que vinham com ela estavam chorando, Jesus se comoveu profundamente. E emocionado, perguntou: ‘Onde o pusestes?’ ‘Senhor, vem ver’”– disseram-lhe. Jesus começou a chorar” (Jo 11,33-35).

Mais ainda: ele quis viver a nossa morte, experimentá-la e, diante dela, sentiu pavor e angústia: “Levou consigo Pedro, Tiago e João, e começou a sentir medo e angústia, e lhes disse: ‘Minha alma está triste até à morte. Ficai aqui e vigiai’” (Mc 14,33).

É impressionante e consolador para nós: o Senhor Jesus teve medo da morte; diante dela, sentiu a necessidade dos amigos, do seu consolo, do seu apoio! É que ele viveu de verdade nossa situação mortal; ele experimentou o que é morrer como ser humano, ele sabe por experiência a dor e o medo de morrer!

Pois bem, para nós, cristãos, a morte somente poderá ser compreendida se olharmos Jesus, nosso Salvador e Senhor, se compreendermos como ele vivenciou, como ele enfrentou a morte e o sentido que lhe deu!

Morrer e viver em Cristo – graça suprema!

É necessário deixar bem claro que a morte não é um mal absoluto, total: se fosse assim, o Filho de Deus não teria morrido! Ao contrário, Cristo não somente morreu como fez de sua morte um ato de amor: “O Pai me ama porque dou minha vida para de novo a retomar. Ninguém a tira de mim. Sou eu mesmo que a dou. Tenho o poder de dá-la e o poder de retomá-la. Esta é a ordem que recebi do meu Pai” (Jo 10,17s). “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15,13).

Se, por um lado, Cristo morreu da nossa morte, isto é, com a angústia que lhe é própria enquanto algo que nos é imposto, algo que não desejamos e não escolhemos, por outro lado, transformou isto em abandono confiante no Deus vivo, esperança de ressurreição e amor para com os irmãos.

Assim, em Cristo, a morte mudou de sentido! A morte, que era simplesmente conseqüência do pecado, agora, em Cristo, tem um novo sentido: é um ato de fé, esperança e amor! Cristo morreu por amor: amou-nos até dar a vida por nós; morreu de amor! A morte, portanto, já não tem um sentido totalmente negativo.

Mais ainda: nós somos chamados a dar um sentido à nossa morte. Vou explicar: o homem não morre como um animal irracional, como uma planta… nós sabemos que morremos! Portanto, podemos morrer com sentimentos diversos, com atitudes variadas: eu posso ver na minha morte uma derrota, morrer como um derrotado, como um amargurado; posso ver na minha morte um absurdo, sem sentido ou posso fazer da minha morte um ato de entrega confiante nas mãos do Pai do céu.

Foi assim que Cristo morreu: para ele, a morte não significava o fim, o absurdo, o vazio, a destruição! Para ele, a morte foi um jogar-se confiante, amoroso, nas mãos do Pai, Deus de amor, de ternura, de carinho e de vida: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu Espírito!” Assim, Jesus fez de sua morte sua última declaração de amor ao Pai, uma declaração de total confiança e abandono nas mãos do Pai. É como se ele dissesse: “Paizinho querido, eu me jogo em ti, abandono-me nas tuas mãos, para além da morte; sei que tu és amor, que tu és o Deus da vida! Sei que tua mão potente jamais me abandonará… e nem mesmo a morte poderá arrancar-me de tuas mãos! Pai, eu me abandono a ti, eu te entrego, te confio a minha vida! Vivi sempre para ti, por ti nasci e, agora, consumo amorosamente minha existência neste mundo! Lanço-me nas tuas mãos com infinita confiança, porque tu és o meu Pai querido!”

Portanto, para Jesus, mesmo sendo sofrida e angustiante, a morte tomou um novo sentido! Para nós, cristãos, é necessário olhar o Cristo na sua morte e ressurreição para aprendermos a morrer, para dar um novo sentido à morte. Somos chamados, na fé, a fazer da morte não uma derrota, não um salto no escuro, no desconhecido, no além apavorante dos espíritas, mas um salto confiante, como o de Jesus, nas mão do Pai querido, cujo amor é mais forte que a morte, cujo carinho e misericórdia são infinitos. Nós não morreremos sozinhos: morreremos da mesma morte que o Senhor Jesus morreu: morte humana, triste, morte que ele venceu, morte à qual ele deu um novo sentido! Nele, morte e vida não se opõem: “Aquele que crê em mim, mesmo que morra viverá!” (Jo 11,25).

Que promessa fantástica! Nós morremos com Cristo e ressuscitaremos com ele também! Já falamos sobre a ressurreição, já vimos que ressuscitaremos com Cristo. O que desejo mostrar é que morremos também com Cristo; que não morreremos sozinhos! São Paulo diz, de modo maravilhoso: “Ignorais que nós todos que somos batizados em Cristo é na sua morte que fomos batizados?” (Rm 6,3) É uma afirmação impressionante: o verbo batizar significa “mergulhar”; Paulo nos diz que fomos, desde o Batismo, mergulhados na morte de Cristo! Vejam: não morreremos sozinhos; não passaremos sozinhos pelo vale da morte: estamos mergulhados, batizados, na morte de Cristo! Morreremos com ele e nele!

Em Cristo, a morte se torna bendita!

Para nós, cristãos, morrer é morrer com Cristo e como Cristo, é completar em nós a morte de Jesus para que a vida ressuscitada de Jesus nos plenifique. Assim, aquele que é batizado já não vê na morte o angustioso fim do seu ser, mas a possibilidade última e mais radical de configuração com seu modelo, que é Cristo ressuscitado. Sim, seremos como Cristo ressuscitado!

Vista deste modo, a morte torna-se o ato que deve ser vivido com vontade de entrega livre e amorosa, na esperança da ressurreição. A morte torna-se um co-morrer com Cristo para co-ressuscitar com ele: “Com ele fomos sepultados pelo batismo na morte para que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, assim também andemos em novidade de vida. Pois, se estamos inseridos no solidarismo de sua morte, também o seremos no da ressurreição” (Rm 6,4s).

Compreendamos bem o pensamento de São Paulo: desde o Batismo começamos a morrer com Cristo, isto é, começamos a viver as mortes de cada dia como participação na morte do Senhor. Tal participação deve ser ratificada pela mortificação de cada dia, pela participação da Eucaristia, que é mergulho na morte e ressurreição do Senhor Jesus.

Assim, o cristão vai se apropriando da própria morte e dando-lhe um sentido, fazendo de sua morte uma morte-ação, morte como união com o Cristo morto! Morrer, para o cristão, já não deveria ser uma fatalidade: ele deveria dizer: “Morro a cada dia, em cada lágrima, em cada tristeza, em cada derrota… Mas não morro como um derrotado: uno minhas mortes à morte do Senhor, para como ele ressuscitar!” A morte, assim, vai ganhando sentido em nós, vai se tornando uma realidade humana e cristã, e não uma fatalidade biológica. Enquanto isso, para quem não se abre para o Cristo, para quem o refuta, a morte vai sendo experimentada a cada dia como poder aniquilador, vazio do ser e total fracasso da existência…

A morte – caminho para encontrar o Senhor!

No nosso caminho de cristãos, vamos morrendo e caminhando para o encontro com Cristo. Para nós, com efeito, a morte tem também este aspecto belíssimo: é um encontro com o Senhor: “Ficai preparados, porque, numa hora que não pensais, o Filho do homem virá (Lc 12,40); Sim, Jesus virá: ele é aquele que vem ao nosso encontro (cf. Mt 11,2): “Vou e retorno a vós” (Jo 14,18.28).

Ele vem vindo sempre na nossa existência: veio no Batismo, quando entramos em comunhão com sua morte e ressurreição, vem sobretudo na Eucaristia, quando mergulhamos na sua Páscoa e já experimentamos o gosto da comunhão com ele, vem a cada dia para nos fazer passar da “carne” (pecado) ao “espírito” (vida no Espírito Santo). Finalmente, ele virá na passagem definitiva, no momento do encontro final. Por isso mesmo Paulo exclamava: “O meu desejo é partir para estar com Cristo” (Fl 1,23). Assim, morrer é ir ao encontro do Salvador que vem, quem irrompe com sua Glória na minha pobre existência; morrer é ser surpreendido por Cristo, é ser invadido pela sua Vida divina e plena. Santa Teresinha dizia com sabedoria: “Não é a morte que virá me buscar, é Deus!”

Pois bem: eis a conclusão maravilhosa: não morreremos sozinhos; morreremos como Cristo e com Cristo; mais ainda: morreremos em Cristo. Podemos recordar aqui, para o momento da morte, a palavra de Jesus: “Nesse dia sabereis que… estais em mim e eu em vós!” (Jo 14,20).

Mas, não é só! Cristo não vem sozinho ao nosso encontro! Ele é o primogênito dentre os mortos, é a Cabeça da Igreja. Tendo sido batizados, morremos como membros do seu corpo, que é a Igreja e morremos no seu corpo. Assim, não morremos sozinhos: morremos na comunidade dos santificados, dos batizados! A morte será o passar da Igreja terrestre para a Igreja da Glória.

É interessante que se apresenta muitas vezes a morte como um mistério de escuridão, solidão e medo! Nada disso! Para o cristão, ela é primeiramente mistério de comunhão com Cristo: “Ainda que eu passe pelo vale da morte, nenhum mal eu temerei: tu estás comigo; teu bordão e teu cajado me dão segurança!” (Sl 22). Mas é também mistério de comunhão com os irmãos que ficam. Pensemos no belíssimo dom que são a Unção dos Enfermos e o Viático. Pela Unção, a Igreja toda coloca-se ao nosso lado, reza por nós, implora o perdão dos pecados e nos unge com o óleo que simboliza a força do Espírito que cura e perdoa.

Sim, a Igreja ora conosco e por nós! E o viático, o alimento dos que viajam? Nele, recebemos pela última vez a Eucaristia, Corpo do Senhor ressuscitado, que está na Glória: “Pai, aqueles que me deste quero que onde eu estou, também eles estejam comigo, para que contemplem a minha Glória” (Jo 17,24). O sacerdote, ao nos dar o Viático, diz: “O Corpo de Cristo!” e acrescenta: “Que ele te guarde para a vida eterna!” Eis o sentido de morrer com Cristo e com os irmãos! Assim, passaremos do Corpo de Cristo, que é a Igreja da terra, para o Corpo de Cristo, que é a Igreja celeste! Nada de solidão, de medo, de escuridão!

Se nós compreendermos bem o sentido cristão da morte, já não vamos temê-la como algo absurdo e apavorante. É necessário, portanto, cristianizar a morte! Que graça saber morrer em Cristo. Que graça poder morrer calmamente, preparando-se para o encontro, tendo nas mãos a vela, que simboliza a fé do nosso Batismo e, como o atleta que corre até ao fim da corrida, poder dizer: “Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. Desde já me está reservada a coroa da justiça, que me dará o Senhor, justo juiz, naquele Dia; e não somente a mim, mas todos os que tiverem esperado com amor a sua Aparição” (2Tm 4,6ss).

 

Por Dom Henrique Soares da Costa, Bispo Auxiliar de Aracaju/SE – Blog Visão Cristã

 

 

 

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Sobre Alex C. Vasconcelos

Casado, 32 anos, pai de uma princesa, Advogado, Acólito na Paróquia do Divino Espírito Santo em Maceió/AL.
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