Por que Padre não pode casar?

Há laguns dias, fui indagado por um amigo meu, numa conversa informal, sobre o porque da Igreja “obrigar” os padres a não se casarem. Respondi-lhe que o celibato não era uma proibição, ou uma imposição por parte da Igreja, mas sim, uma escolha, por amor e alegria, livre e consciente, daqueles que desejavam dedicar sua vida ao ministério sacerdotal.

Ele entendeu, mas este meu amigo não está sozinho em suas indagações acerca do celibato sacerdotal, pois, muitos são os cristãos (inclusive os católicos) que não aceitam, ou não entendem, tal doutrina.

A questão pode ser respondida, em linhas gerais, sob três aspectos:

1 – Aspecto Cristológico:

Jesus Cristo, o Sacerdote por excelência, optou por uma vida celibatária. Além disso, Jesus prometeu uma superabundante recompensa a todos quantos abandonam casa, família, mulher e filhos pelo Reino de Deus (cf Lc 18,29-30) e até recomendou, com palavras densas de mistério e de promessas, uma consagração mais perfeita ainda ao Reino dos Céus, com a virgindade, em conseqüência de um dom especial (cf Mt 19,11-12). O celibato do padre é, assim, um sinal eloqüente do domínio do Reino de Deus sobre ele.

2 – Aspecto Eclesiológico

O padre não se casa para poder se dedicar, sem reservas e empecilhos, ao serviço do povo de Deus. A Igreja é a sua esposa, e como Cristo se entregou, inteiramente, por ela, assim também faz o padre, entregando-lhe tudo, inclusive seus afetos. O padre não se casa não é por falta de amor, nem por não saber amar, mas é para poder amar mais e amar a todos o tempo todo.

3 – Aspecto Escatológico

O padre não se casa para ser sinal profético daquela vida futura que todos esperamos alcançar. Naquela vida, diz Jesus, “os homens não terão mulheres, nem as mulheres terão maridos, mas serão como anjos de Deus no céu” (Mt 22,30). No meio do mundo passageiro e transitório, o celibato dos padres se torna sinal daquela vida definitiva. Além disso, no meio de um mundo materialista, consumista e hedonista, o celibato dos padres se torna um grito profético que anuncia os verdadeiros valores que saciam o coração humano.

Todavia, para esclarecer ainda mais tais dúvidas, gostaria de disponibilizar um texto do Prof. Felipe Aquino, que bem expõe a questão do porque do celibato clerical.

Porque o celibato do sacerdote?

Jesus Cristo é o verdadeiro sacerdote e foi celibatário; então, a Igreja vê Nele o modelo do verdadeiro sacerdote que, pelo celibato, se conforma ao grande Sacerdote. Jesus deixou claro a sua aprovação e recomendação ao celibato para os sacerdotes, quando disse: “Porque há eunucos que o são desde o ventre de suas mães, há eunucos tornados tais pelas mãos dos homens e há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por amor do Reino dos céus. Quem puder compreender, compreenda” (Mateus 19,12).

Nisto, Cristo está dizendo que os sacerdotes devem assumir o celibato, como Ele o fez, “por amor ao Reino de Deus”. O sacerdote deve ficar livre dos pesados encargos de manter uma família, educar filhos, trabalhar para manter o lar; podendo, assim, dedicar-se totalmente ao Reino de Deus. É por isso que desde o ano 306, no Concilio de Elvira, na Espanha, o celibato se estendeu por todo o Ocidente, até que em 1123 o Concílio universal de Latrão I o tornou obrigatório.

É preciso dizer que a Igreja não impõe a celibato a ninguém; ele deve ser assumido livremente, e com alegria, por aqueles que têm essa vocação especial de entregar-se totalmente ao serviço de Deus e da Igreja. É uma graça especial que Deus concede aos chamados ao sacerdócio e à vida religiosa. Assim, o celibato é um sinal claro da verdadeira vocação sacerdotal.

No inicio do Cristianismo a grandeza do celibato sacerdotal ainda não era possível; por isso São Paulo escreve a Timóteo, que S. Paulo colocou como bispo de Éfeso, dizendo: “O epíscopo ou presbítero deve ser esposo de uma só mulher” (1Tm 3, 2). Estaria, por isto, o padre hoje obrigado a casar-se? Não. O Apóstolo tinha em vista uma comunidade situada em Éfeso cujos membros se converteram em idade adulta, com muitos já casados. Dentre esses o Apóstolo deseja que sejam escolhidos para o sacerdócio homens casados (evitando os viúvos recasados).

Já no ano 56, São Paulo, que optou pelo celibato, escrevia aos fiéis de Corinto (1Cor 7,25-35) enfatizando o valor do celibato: “Aos solteiros e às viúvas digo que lhes é bom se permanecessem como eu. Mas se não podem guardar a continência que se casem” (1Cor 7,8). “Não estás ligado a uma mulher? Não procures mulher”. O Apóstolo se refere às preocupações ligadas ao casamento (orçamento, salário, educação dos filhos…).

E Paulo enfatiza: “Quem não tem esposa, cuida das coisas do Senhor e do modo de agradar à esposa, e fica dividido. Da mesma forma a mulher não casada e a virgem cuidam das coisas do Senhor, a fim de serem santas de corpo e de espírito. Mas a mulher casada cuida das coisas do mundo; procura como agradar ao marido”. “Procede bem aquele que casa sua virgem; aquele que não a casa, procede melhor ainda” (1Cor 7, 38).

A virgindade consagrada e o celibato não tinham valor nem para o judeu nem para o pagão. Eles brotam da consciência de que o Reino já chegou com Jesus Cristo.

O último Sínodo dos Bispos sobre a Eucaristia confirmou o celibato, e o Papa Bento XVI expressou isso na Exortação Apostólica pos-sinodal, “Sacramentum Caritatis”, de 22 fev 2007.

Disse o Papa: “Os padres sinodais quiseram sublinhar como o sacerdócio ministerial requer, através da ordenação, a plena configuração a Cristo… É necessário reiterar o sentido profundo do celibato sacerdotal, justamente considerado uma riqueza inestimável e confirmado também pela prática oriental de escolher os bispos apenas de entre aqueles que vivem no celibato. (…) Com efeito, nesta opção do sacerdote encontram expressão peculiar a dedicação que o conforma a Cristo e a oferta exclusiva de si mesmo pelo Reino de Deus. O fato de o próprio Cristo, eterno sacerdote, ter vivido a sua missão até ao sacrifício da cruz no estado de virgindade constitui o ponto seguro de referência para perceber o sentido da tradição da Igreja Latina a tal respeito. Assim, não é suficiente compreender o celibato sacerdotal em termos meramente funcionais; na realidade, constitui uma especial conformação ao estilo de vida do próprio Cristo. Antes de mais, semelhante opção é esponsal: a identificação com o coração de Cristo Esposo que dá a vida pela sua Esposa. Em sintonia com a grande tradição eclesial, com o Concílio Vaticano II e com os Sumos Pontífices meus predecessores, corroboro a beleza e a importância duma vida sacerdotal vivida no celibato como sinal expressivo de dedicação total e exclusiva a Cristo, à Igreja e ao Reino de Deus, e, consequentemente, confirmo a sua obrigatoriedade para a tradição latina. O celibato sacerdotal, vivido com maturidade, alegria e dedicação, é uma bênção enorme para a Igreja e para a própria sociedade” (n.24).

O Mahatma Ghandi, hindu, tinha grande apreço pelo celibato. Ele disse: “Não tenham receio de que o celibato leve à extinção da raça humana. O resultado mais lógico será a transferência da nossa humanidade para um plano mais alto… Vocês erram não reconhecendo o valor do celibato: eu penso que é exatamente graças ao celibato dos seus sacerdotes que a Igreja católica romana continua sempre vigorosa”. (Tomás Tochi, “Gandhi, mensagem para hoje”, Ed. Mundo 3, SP, pp. 105ss,1974)

Alguns querem culpar o celibato pelos erros de uma minoria de padres que se desviam do caminho de Deus. A queda desses padres no pecado não é por culpa do celibato, e sim por falta de vocação, oração, zelo apostólico, mortificação, etc; tanto assim que a maioria vive na castidade e por uma longa vida. Quantos e quantos padres e bispos vivem em paz, em relação ao celibato, e já com seus cabelos brancos?!

O casamento poderia trazer muitas dificuldades aos sacerdotes. Não nos iludamos! Casados, eles teriam todos os problemas que os leigos têm, quando se casam. O primeiro é encontrar, antes do diaconato, uma mulher cristã exemplar que aceite as muitas limitações que qualquer sacerdote tem em seu ministério. Essa mulher e mãe teria de ficar muito tempo sozinha com os filhos. Depois, os padres casados teriam de trabalhar e ter uma profissão, como os pastores protestantes, para manter a família. Quantos filhos teria? Certamente não todos que talvez desejasse. Teria certamente que fazer o controle da natalidade pelo método natural Billings, que exige disciplina. A esposa aceitaria isso?

Além disso, podemos imaginar como seria nocivo para a Igreja e para os fiéis o contra-testemunho de um padre que por ventura se tornasse infiel à esposa e mãe dos seus filhos! Mais ainda, na vida conjugal não há segredos entre marido e mulher. Será que os fiéis teriam a necessária confiança no absoluto sigilo das confissões e aconselhamentos com o padre casado? Você já pensou se um dos filhos do padre entrasse pelos descaminhos da violência, da bebedeira, das drogas e do sexo prematuro, com o possível engravidamento da namorada?

Tudo isso, mas principalmente a sua conformação a Jesus Cristo, dedicado total e exclusivamente ao Reino de Deus, valoriza o celibato sacerdotal.

Fonte: Prof. Felipe Aquino – Ed. Cléofas

***

Espero ter ajudado em mais esta questão, que suscita tantas dúvidas, mas que é, acima de tudo, uma questão de fé!

Um grande abraço a todos!!!

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Sobre Alex C. Vasconcelos

Casado, 30 anos, Advogado, Acólito na Paróquia do Divino Espírito Santo em Maceió/AL. Podes me encontrar no "Sacrifício Vivo e Santo" - http://sacrificiovivoesanto.wordpress.com/ e no "Dominus Vobiscum" - http://domvob.wordpress.com/, onde escrevo na seção Espiritualidade.
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